ANO: 25 | Nº: 6283

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
09/07/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Chega de saudade

Época do estágio militar. Muitos se queixam dos tempos de internato. Outros não gostam do serviço prestado na caserna. Digo que foram episódios ricos, pedagógicos; com disciplina, ritos, hierarquia; horários para cumprimento de rotinas, fardas e uniformes; a ciência política diz que os dois formam as instituições totais, juntos com junto com os hospitais, os mosteiros e os asilos.
O quartel era o 3º Regimento de Cavalaria Mecanizada. Nasceu perto do parque de exposição, partejado pelo coronel Arruda. Homem rígido, espartano. Contam que punia o subalterno que usava a gandola sem botão ou falta de verniz na bota. Deu-se voz de prisão quando atrasou minutos, para exemplo. Agora, contudo, era comandado pelo coronel Jatahy, gentil-homem educado na missão francesa. Havia o coronel Maia, bonachão quando necessário, mas inflexível nos deveres de administrador. Andava pelo pátio a investigar se alguém jogara um toco de cigarro no piso.
O coronel Jackson permitia que eu saísse antes meio-dia para lecionar no colégio das freiras; ia fardado, a estrelinha reluzia no ombro, aproveitava a carona num velho jipe. Como era professor, chefiava a escola regimental, os recrutas aprendiam o beabá com pacientes alfabetizadoras, depois do almoço. Como oficial de dia nada melhor que acordar de madrugada e sorver um café preto e ovos estrelados feitos na chapa no refeitório dos soldados.
Nas folgas da manhã visita ao quiosque perto da companhia de manutenção, lanches imperdíveis. A zona era reino do coronel Xavier. E do major Jardim, que pendurava nas paredes folhinhas de mulheres peladas para escandalizar frei Mário. Complicada era o dia de inspeção do general Ladário ou de outro chefe de exército.
Os tanques desciam dos tocos, era um nervoso polir de correntes e consertar os motores; as máquinas roncavam como se fosse guerra, os freios incendiavam; o regimento em forma, a banda, desfile, continência, espada, olhar à direiiiita! Em noite de serviço não tinha essa de ficar vendo televisão, que nem se pensava. Ou rádio de ouvido. No pedregulho ressoavam os passos de vigia, era preciso dar uma incerta lá nos fundos para fiscalizar a guarda; a lua brincava no campo de futebol; os prédios zelavam a pátria.
Despertava pelas cinco e meia, ficava ouvindo uma estação uruguaia que anunciava o empório de los sandwichs, calle rondeau catorce ochenta. Às seis e meia assomava a jamanta, no banco da frente os graduados; os estagiários atrás nos assentos de madeira, alguns com os olhos preguiçosos de festa; e na frescura matinal, ecoava a nostalgia dos tangos cantados pelo capitão Segredo, que amainavam no pórtico, iniciava a jornada. No cassino dos oficiais havia um aparelho de som. Uma manhã, todos estranharam a voz baixinha, curta, um violão e uma batida diferente que os alto-falantes repercutiam; quando o comandante abandonava a sala todos se retiravam para os esquadrões; saindo e curioso mirei a capa, era um sujeito com a mão no queixo, um pulôver enrolado, um João Gilberto. No sábado, corri à loja do Romeu Brignol e comprei exemplar igual, louco para ouvi-lo na flamante hi-fi: começava a bossa nova.
Mas basta, chega de saudade.

 

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