ANO: 25 | Nº: 6385

Fernando Risch

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Escritor
12/07/2019 Fernando Risch (Opinião)

Tenho saudades de sentir esperança

Esperança não tem a ver com desejo que as coisas deem certo. Esperança é um sentimento autônomo. Ela aparece quando quer e depende de inúmeros fatores incontroláveis. Dizem que a minha geração é a mais depressiva desde a Segunda Guerra Mundial. E como poderia ser diferente?

Eu me lembro de ter esperança. Era uma espécie de certeza de que tudo ficaria bem, não importando o que acontecesse, porque tudo dava certo para todo mundo, em níveis diferentes. As coisas aconteciam, floresciam, fosse com quem fosse. Época das oportunidades. Elas estavam penduradas, bastava dar um pulo para alcançá-las. Não faz muito tempo isso, por isso é mais doloroso quando um sentimento tão agradável e seguro quanto a esperança se dilui num devasso precipício.

Uma cineasta, que lançou um filme de destaque recentemente, disse o seguinte: "Algo se rompeu no tecido social brasileiro". Essa ruptura, esse rasgo fisiológico, foi como o último gol de Schürrle em uma Copa do Mundo já passada, desencadeou um efeito em cascata desde então que tragou o futuro às sombras, que enterrou sonhos em covas profundas e assassinou a esperança, esta criança de sorriso largo, como algo dispensável.

Hoje em dia, com um panteão de desinteligência a pedir sacrifícios eternos de quem nada mais tem além da própria vida, a expectativa alegre e próspera morreu num dobrar de esquina. Hoje, há a luta para sair do fundo do oceano, vir à tona e respirar; há a força para desvencilhar o grilhão da perna e poder descansar sem medo de não acordar.

Tenho saudades de sentir esperança. Talvez um dia eu volte a tê-la comigo. Neste momento, é impossível. Quem sabe amanhã, numa virada de nascer do sol, quando as valas que recebem ossos de sonhadores comecem a receber a carne dos canalhas.

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