ANO: 25 | Nº: 6334

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
13/07/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Indiadas memoráveis

Aprendi com o mecânico Gomes, infelizmente falecido no ano passado, que quando tudo dá certo numa pescaria a gente retorna para casa acrescentando apenas peixes na bagagem. Porém, quando tudo dá errado, podemos até voltar sem peixes, mas não faltarão histórias para contar e, dependendo do tamanho da "tragédia", histórias que ficarão para a posteridade. Histórias tão ricas e fantásticas que com o passar do tempo ficarão parecendo lendas, de tantos elementos novos e fantasiosos adicionados em cada vez que a aventura é relembrada.

Era um dia de inverno horroroso, daqueles que para sair de casa só estando muito necessitado, com um problema mecânico inadiável como o meu. Enquanto aguardava a conclusão do serviço no portão da oficina, de frente para o Sul, observando aquela garoa guasqueada e fria que mal permitia a gente enxergar o outro lado da rua, Gomes parou do meu lado e olhando para aquela paisagem desalentadora, exclamou: "Hoje tá bom pra pescar na taipa de uma barragem!" Imediatamente reagi: "Tu tá louco!" Aí ele expôs e defendeu a sua tese de que pescaria boa é aquela onde tudo dá errado.
Começou sua argumentação sugerindo que eu imaginasse uma pescaria onde tudo dá certo. Estrada em ótimas condições, clima perfeito, sem mosquitos, insetos nem bichos peçonhentos, acampamento plano com sombra e próximo da água, fartura de peixes etc. Tudo tão bom e perfeito que se a gente contar para os outros vão pensar que é história de pescador.
Porém, se no caminho para o pesqueiro tiver uma terra lavrada, depois de uma estrada de saibro escorregadio, cheia de costeletas, buracos e atoleiros, acampamento precário em terreno inclinado e todo irregular, sem conforto, sem sombra nem proteção contra o vento, fartura de mosquitos e escassez de peixes e, para completar, uma incessante garoa guasqueada e gelada. Neste caso, é provável que bata o arrependimento de ter ido antes mesmo de ter chegado, bem antes de colocar a primeira estaca da barraca ou jogar o primeiro anzol na água.
E, na verdade, isso não é diferente com todas as experiências que temos ao longo da vida. Se por um lado temos uma tendência de contar as "ganhas" e ocultar as "perdidas", por outro não demoramos a descobrir que as "perdidas" são as mais engraçadas e as preferidas pela platéia que nos assiste. É óbvio que administramos este aparente conflito suavizando ou romantizando nossas fraquezas e imperfeições, e enaltecendo nossas virtudes e desprendimento, confirmando a tese de que "quem conta um conto aumenta um ponto", sempre puxando a brasa para o nosso assado, mas o que interessa é que o Gomes estava certo: quanto maior a indiada, mais memorável ela se torna.

 

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