ANO: 25 | Nº: 6334

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
13/07/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Um bar em Greenwich Village

Em escritos ou falas, indagado sobre a atuação do tribunal gaúcho, em desatar os nós dos direitos homossexuais, exponho as causas precedentes aos atos de libertação, todas cravadas em anos 90, mas paridas aos sussurros do século XXI.
As ciências sociais apontavam a nova conduta dos grupos homoafetivos que, antes restritos aos guetos da indiferença e do silêncio, as somavam para vindicar garantias asseguradas aos heterossexuais, como direito à saúde, dependência previdenciária; união estável, adoção; casamento e tantas outras próprias dos debates judiciais. Ou como disse Roudinesco, uma fuga do "esquecimento voluntário" migrando para a busca de "normalização" ou "desejo de família", típicos de pessoas ou casais de sexo diverso. A esse fato social se agrega o fortalecimento de literatura adequada, com a edição de obras de protesto, antes carente; e o recrudescimento de movimentos sociais que, viúvos das lutas tradicionais da esquerda e do socialismo, ante a queda do Muro de Berlim e a desagregação da União Soviética, vieram às ruas com o lábaro da proteção da subjetividade, da liberdade comportamental;do revide aos preconceitos; da transformação dos padrões da masculinidade e com a abertura de espaços para o erotismo e visão de outro mundo. No parlamento, propunha-se um projeto de "parceria civil", pois fora instituída a união estável; surgem organizações não-governamentais em proteção aos direitos civis; criam-se associações de gays, lésbicas e travestis; iniciam-se ajuizamentos de demandas com pretensões de heranças, divisão de bens; acolhimentos de menores; e reconhecimento de parcerias homoeróticas. Aumenta o número de seminários e congressos sobre os novos temas. E, pano de fundo, se registra a "crise na concepção da família", frente à mudança dos conceitos médicos e psicológicos sobre a homossexualidade e alteração dos costumes, ferindo o "núcleo duro" da organização familiar. Quando os sinos badalam o jovem século desperta já com as cores de outra bandeira, tremulando exigências e projetos: o arco-íris.
Foi no princípio dos anos 90 e, noviço na atividade jurisdicional, viajo com casais de amigos para os Estados Unidos. Inicialmente, Nova York ou Nova Amsterdã, a cidade fundada por 23 judeus holandeses, comerciantes de peles, egressos em 1654 do Nordeste brasileiro; e substituídos por ingleses que a rebatizaram em 1664 e a abandonaram em 1783, no fim da Guerra da Independência. É clichê dizer-se que é uma das maiores e talvez melhores do mundo.
A Velha Europa encanta pela beleza de seu passado, os monumentos, museus, pelos recantos históricos. Como Paris. A cada passo se encontra um episódio sabido. Um local histórico. Anda-se na esperança de achar algum personagem. Ali, Rodin. Mais adiante, Napoleão. Para lá a Bastilha. A Ópera. Versalhes. Respira-se a memória. Oxigena-se o saber. Certa vez assentei num banco da Champs Elysees à espera de um amigo, enquanto os familiares rodavam pelas lojas próximas. Brinquei dizendo que vira o mundo passar em direção ao Arco do Triunfo. Cada estação do metrô tem vínculo com algum acontecimento; cada pedra se lembra os tanques nazistas. No outono, pisa-se o dourado dos plátanos.
Falava de Nova York: é diferente, moderna. Pulsante. Em sua arquitetura mistura-se o estilo vitoriano com o extravagante moderno. Os prédios corais enfeitam ruas arborizadas onde circulam táxis amarelos. Há torres, mansões e arranha-céus. Ao longe a estátua. Manhattan e a Wall Street; o Banco Federal, na época também as Torres Gêmeas; a Broadway, as charretes do Central Park; Museu de Arte Moderna, a Rua Madison; as lancherias Dely onde se saboreava o café da manhã, omelete e bacon. Também a visita à Catedral de São Patrício; à China Town; degustar a massa do Alfredo, enfim, apenas a agenda turística, o Pier, Harlem, Brooklin; a ponte, o Rio Hudson. O Blue Note.
Certa tarde os amigos preferiam outros passeios. Neusa e eu resolvemos passear pelo Village, fama de lugar boêmio, habitado por intelectuais e artistas, também com casas charmosas, pátios arborizados, clubes e casas de jazz em cada esquina. Era uma tarde agradável, macia, quente. Depois de andar por pontos tradicionais e maravilhar-se com chalés exóticos, nas vielas sinuosas, bem quando se caminhava por uma praça deu a vontade de beber uma cerveja, a área estava cercada de bares. Fomos atraídos por um deles. De fora se escutava um alarido. Conversas e risos.
Resolvemos ingressar nele. Todas as mesas ocupadas. Restavam os assentos à frente do balcão, onde se acotovelavam clientes. Fiz o pedido: bier. O atendente olhou-nos, e antes de servir, polido e gentil, chamou atenção que ali era um ambiente especial, exclusivamente masculino, mas se Neusa desejasse permanecer não haveria qualquer problema. Mais atentamente dei-me conta: estava num meio gay. Saí de volta à praça e flagrei esculturas brancas representando casais homossexuais, isso em 1994. Três anos depois, quando voltamos à América, na cidade de São Francisco e jornadeava pelo bairro beatnik assisti dois rapazes de mãos dadas e trocando carícias e beijos, fato pouco usual para os brasileiros.
Durante anos quis descobrir como se chamava a praça do Village. E agora, só agora, soube que era a Praça Sheridan, nome de um general, local de convergência de sete ruas para um labirinto, descrevem os guias de viagem, apelidada de "ratoeira". Em 1863, ali, a população civil, revoltada com o serviço militar obrigatório, tentou linchar os escravos libertos. E exatamente há cinquenta anos, em 29 de junho de 1969, frequentadores gays do Stonewall Inn se rebelaram contra a polícia que os desejava retirar (era proibido aos gays se reunir em bares), seguindo-se batalha que se constituiu no marco para o nascente movimento em defesa dos direitos homossexuais. O Stonewall desapareceu substituído por diversos bares que ainda cercam a Sheridan Square; o Village é foco dos desfiles gays.
Anos depois seria eu o autor da decisão que reconhecia uma parceria homossexual como uma entidade familiar protegida.
Não tenho dúvidas: era a Praça Sheridan. Mas o bar, seria o Stonewall?

 

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