ANO: 25 | Nº: 6334

João L. Roschildt

joaoroschildt.jornalminuano@outlook.com
Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
18/07/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Ciência é ciência

Ideologia é ideologia. Ignorância é ignorância. Ideologia é ignorância. Identificar isso é ciência. Mas, para além da simples detecção da cegueira e surdez causadas pelo vírus ideológico, no mundo contemporâneo, ainda pode-se afirmar que há uma ideologia da ignorância. Existe uma espécie de valorização da bestialidade com enorme complacência social. Dependendo do grupo social em que um indivíduo está identificado, qualquer asneira proferida ganha contornos de erudição.

O politicamente correto e a histeria de grupos “minoritários”, combinados com pensamentos coletivistas, criaram esse estado de opressão intelectual. Com receios quanto a possíveis perseguições morais (ou até mesmo jurídicas), boa parte dos cidadãos preferem a omissão do silêncio a debater temas que podem “ofender” minorias. Na contramão disso, pertencer aos “vitimizados” significa estar ungido para ser desbocado e proferir disparates sem qualquer tipo de consequência negativa.

A jogadora Megan Rapinoe, campeã da Copa do Mundo feminina de futebol com a seleção dos Estados Unidos, em 07/07/2019, também amealhou dois prêmios individuais: Bola de Ouro e Chuteira de Ouro. Ou seja, foi eleita a melhor jogadora e a artilheira da competição. Mas tão óbvio quanto saber que Rapinoe não passa de uma atleta em uma ótima equipe, é o fato de que os holofotes sobre ela estão diretamente relacionados ao seu ativismo LGBT e às suas críticas ao presidente norte-americano.

A grande mídia, sedenta pelo sangue de Trump, viu, no elo entre esporte e política, uma carta para manter as atenções de todos. Com 34 anos, muitos nem conheciam Rapinoe, mas foram maciçamente informados mais pelas falas “lacradoras” do que pelas habilidades com os pés da atleta. Ávida no egocentrismo, típico de quem está em confronto com o universo por julgar-se melhor do que os outros, Rapinoe, que se autointitula de “protesto ambulante”, repousa na fama de se recusar a cantar o hino nacional para lutar a favor de pessoas que, supostamente, não se encontram em posição de domínio social. Durante a Copa do Mundo, a jogadora ficou mais célebre (ou celebrada?) quando disse em um vídeo que “eu não vou a m**** da Casa Branca”, caso fosse convidada por Trump. Para quem só quer protestar e protestar, nada chocante.

Mas, outras declarações passaram razoavelmente despercebidas pelo espelho reflexivo da sociedade. E sequer foram alvo de debates. Logo após a vitória sobre a França, nas quartas-de-final, Rapinoe declarou a plenos pulmões: “Você não pode ganhar um campeonato sem gays no seu time: nunca aconteceu, nunca. É a ciência, ali mesmo!”. Assim que o título foi conquistado, a atleta voltou ao tema em uma rede social: “Já discutimos isso. Ciência é ciência. Os gays governam”. Ela, que é formada em Sociologia (alguma novidade?) sabe bem o quanto a ciência deve estar subalterna a ideologia.

Exercício hipotético: seria possível refutar as declarações de Rapinoe com a mesma veemência de seu posicionamento? Seria moralmente aceitável que algum atleta de qualquer esporte masculino declarasse que é impossível ganhar um campeonato com atletas gays no elenco? Ou que heterossexuais governam? Ou ainda, Rapinoe estaria afirmando que as jogadoras heterossexuais são inferiores e menos capazes que as homossexuais? Eis a ciência de Rapinoe.

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...