ANO: 25 | Nº: 6309

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
20/07/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Modinhas

Aprendi com amigos e colegas arquitetos e engenheiros que, na profissão deles, parafraseando Lavoisier, "nada se cria, nada se perde, tudo se copia!". Forma criativa e bem humorada de admitirem que as "modinhas", fenômeno aparentemente contemporâneo, sempre existiu, inclusive na área das construções. Tanto que é possível determinar a idade aproximada de algumas obras em função de sua arquitetura ou forma de construir ou estruturar.
Se por um lado isso não deixa de ser uma evidência de que a falta de criatividade e originalidade é uma tendência natural do ser humano, por outro cria um padrão que acaba se transformando em importante marco histórico e cultural.
Não é diferente com o design dos móveis, automóveis e outros veículos; com o corte, tecido ou cores das nossas roupas e até com as receitas ou ingredientes de nossa alimentação. Assim, se tudo isso sofre a influência das "modinhas", não poderia ser diferente nas onipresentes redes sociais. Estas sim, formas contemporâneas e cada vez mais poderosas de interagirmos socialmente. E exatamente por sua onipresença, crescente influência e velocidade alucinante, as "modinhas" rapidamente invadem e "desinvadem" nosso cotidiano. Mal saiu da moda o aplicativo Dollify, entrou o FaceApp. E, assim, logo depois da invasão de caricaturas fofinhas com olhos grandes como dos mangás, veio uma onda de pessoas envelhecidas por impressionantes efeitos digitais.
Via de regra, estas modinhas são inofensivas, exceto pelo efeito colateral de uma suposta e perigosa invasão de privacidade virtual. Nada muito diferente do simples fato de usar um smartphone com vários outros aplicativos que transformaram nosso cotidiano num verdadeiro Big Brother. Todavia, um suicídio ocorrido no Rio de Janeiro, recentemente, revelou que nem todo mundo está preparado para certas modinhas. E, por incrível que pareça, a tragédia ocorreu no mesmo dia que a novela das nove, da Globo, exibiu cena similar, trazendo dúvida se, neste caso, mais uma vez, a vida imitou a arte ou a arte imitou a vida.
Cena de rompimento do noivado em pleno altar do casamento religioso é um clássico da dramaturgia e até pouco tempo atrás causava um impacto dramático capaz de remexer com a trama e a audiência. Porém, o mundo não é mais o mesmo! Foi-se o tempo em que isso garantiria efeitos dramáticos, pois tanto a ficção quanto a realidade, aos poucos, começam a sugerir que é possível fazer, deste limão, uma limonada, ou seja, para não desperdiçar a festa preparada com muita antecedência e dinheiro, por que não celebrar a vida com os amigos? E, por que não, também, aproveitar o ensejo para uma cerimônia de autocasamento ou sologamia? Fazer uma pública, ruidosa e insólita declaração de amor próprio ou autoestima como forma de "sair por cima" do constrangimento de levar um fora às vésperas ou na própria cerimônia do casamento.
Só que, na prática, a teoria é diferente. Lidar com uma rejeição deste tamanho, mesmo nos dias atuais, exige um desprendimento não muito comum. Uma maturidade e uma segurança que muito pouca gente tem, sobretudo na juventude. Pois bem, uma blogueira carioca tentou entrar nesta modinha casando consigo mesma depois de levar um fora na véspera da cerimônia de casamento, mas, aparentemente, não aguentou a rejeição de seus seguidores a esta intenção, além, é claro, da rejeição do noivo. Ficou provado que na modinha, assim como na moda, nem todo vestido se assenta em qualquer silhueta.

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