ANO: 25 | Nº: 6334

William G. de M. Rodrigues

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25/07/2019 William G. de M. Rodrigues (Opinião)

Muito além do Dia do Colono

O Dia do Colono, neste dia de 25 de julho, é, sem dúvida, uma data fundamental para a manutenção da memória e identidade daqueles que ajudaram das mais diversas formas a construir o Estado do Rio Grande do Sul.
A chegada dos primeiros colonos à Nova Friburgo-RJ no Brasil Imperial e a subsequente chegada ao nosso Estado a procura de um gleba de terra nos apresenta uma caminhada farta de reveses, imprevistos e muita labuta.
Institucionalizado em 1934 pelo Interventor Gal. Flores da Cunha, o Dia do Colono foi comemorado no jornal Correio do Sul, citando tratar-se de “uma homenagem àquele que tanto brilho tem emprestado ao nosso progresso agrícola”. Sejamos justos ao lembrarmos que no Império o objetivo principal de firmar acordo com países europeus para a vinda de famílias para o Brasil era explorar a sua mão de obra.
O jornal ainda continua no mesmo parágrafo: “O colono é quem mais colaborou para a emancipação econômica do Estado do Rio Grande”. De fato, peguemos como exemplo os colonos alemães que se fixaram no subdistrito do 5º Distrito do Município de Bagé em 1925, com uma colônia privada chamada de Friedenau, vale da paz.
De acordo com J. F. de Assis Brasil no livro A Cultura dos Campos, o autor cita a região de Bagé como detentora de campos férteis para o plantio de trigo, logo se estabeleceram 11 colonos que compraram 499 hectares de terra sem obter ajuda nenhuma do governo municipal de Carlos Cavalcante Mangabeira ou de qualquer outro órgão. Trabalhando com o corte de madeira para construção das primeiras residências e investindo suas economias, força de trabalho e conhecimentos, os primeiros anos foram de combate diante as incertezas a respeito de como seria o dia seguinte.
Analisando a história oral e a memória destes colonos, faz-se jus a comemoração do dia 25 de julho.
Entretanto, se eu disser que há outra data, em certa medida mais importante instituída anterior a 1934, que elevou esta colônia a uma projeção de reconhecimento nacional nos anos seguintes, você saberia me dizer qual é o nome desta data festiva?
Festa do Trigo de 14 de novembro de 1932. Não caro leitor, não se trata de uma comemoração de final de colheita.
A Festa do Trigo foi realizada pela Estação Experimental Fitotécnica da Fronteira, também localizada no 5º Distrito de Bagé, onde destaca-se os trabalhos do geneticista Iwar Beckman no trabalho de melhoramento genético da semente de trigo.
Onde se encaixa os colonos nesta história?
Além da participação dos colonos na festa, a visita guiada por toda Estação e a troca de experiências, a E. E. F. F. cedia gratuitamente as sementes produzidas ali, sendo estas sementes mais resistentes ao clima frio e à chamada “praga da lagarta”.
A importância desta festa atravessa as décadas seguintes, passando por períodos de colheita farta e júbilo como o Dia do Colono, até momentos mais difíceis com colheitas menos generosas e a questão da IIº Guerra Mundial e toda hostilidades por parte de políticas de segurança nacional, desconfiança com imigrantes e a proibição de manifestação cultural, ameaçando assim a preservação da identidade e memória.
No ano de 1951, auge do reconhecimento do trabalho destes imigrantes, realizou-se a Festa Nacional do Trigo entre os dias 10 e 18 de outubro. Esta festa foi estampada no Correio do Sul do dia anterior: “Inaugura-se amanhã, com toda solenidade, a 1º Festa Nacional do Trigo realizada no país em todos os tempos”.
O Ministério da Agricultura chancelou Bagé como referência na triticultura nacional, nitidamente graças aos experimentos da E. E. F. F. e aos resultados de safra obtidos, sobretudo pelos imigrantes da então rebatizada na década de 40, Colônia do Rio Negro.
Afora as autoridades nacionais presentes na festa, as homenagens aos colonos alemães do Rio Negro, a participação no desfile de tratores na Av. Sete de Setembro, é importante ressaltar que estava sendo valorizada a identidade, a memória e o patrimônio destes imigrantes, consolidando a interação entre as culturas para festividades e eventos futuros.
Quer dizer que a partir de então a Colônia prosperou e viveu anos de glória com a produção do trigo? Infelizmente, não.     
Anos depois, em 1956, aconteceu um episódio chamado de “O enterro do trigo”, onde os colonos fizeram um protesto na Av. Sete colocando dois sacos de trigo dentro de um carro fúnebre que desfilou pela avenida com um burro com uma coroa de flores e carros com lenço preto.
É importante de se pensar na Festa do Trigo e notar todos os frutos que foram gerados, e que hoje podemos entender o motivo pela qual a Colônia do Rio Negro em 1957, passou a chamar-se Trigolândia, terra do trigo, identidade criada por este colono pertencente hoje ao Município de Hulha Negra e que, sem dúvida, merece todo nosso carinho e respeito representado por este dia dedicado a ele e a todas as famílias de colonos de Bagé e do Brasil.

*Historiador, Professor do Curso de História da URCAMP Bagé/RS
Fonte: Jornal Correio do Sul; RODRIGUES, William. A Imigração Alemã nos pampas: a colonização e consolidação da Trigolândia

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