ANO: 25 | Nº: 6403
26/07/2019 Luiz Coronel (Opinião)

A face do futuro

Buscávamos desvendar o futuro nas entranhas dos pássaros, nas conchas marinhas, na voz das profecias. Hoje, a mais alta tecnologia traça o perfil dos novos tempos. Mas, digamos, é um perfil tal a pintura contida nos afrescos egípcios. Não revelam inteiramente a face. Deixam largam margem para o mistério. O indecifrável.

Inverno - Eis a mais gélida lembrança do inverno. Menino, venho ao amanhecer pelas estradas de Piratini. O capim coberto pela geada. Eu acompanhava meu padrasto sentado, lá atrás, num banquinho metálico, entre os discos prateados, que iriam arar a terra para o plantio. A boca, as mãos, as orelhas congeladas pelo vento cortante. Se eu reclamasse diriam: - Esses guris de cidade são assim mesmo! Aprendi a ser duro com a vida. Se eu tiver de chorar, imito Chaplin. Choro na chuva, para que não saibam que estou chorando.

Os Gregos - Os gregos tudo disseram. Para Epicuro, se estou vivo, a morte inexiste. E quando a morte existir, eu já não existo. Buscar a aponia, isto é, a ausência da dor e a ataraxia, entendida como a imperturbabilidade da alma, seria encontrar a plena felicidade. Isto era pronunciado no IV aC. E pouco aprendemos dessa lição de Epicuro.

São Sebastião - Num clima de opções radicais, quem tenta manter seu livre e soberano discernimento perde o imprescindível espaço. Não há cadeiras para quem tem recusas ao que for censurável, rejeite um passado turvo ou um presente equivocado. Receberemos flechas de ambos os lados, qual São Sebastião, santo protetor de minha Bagé.

Aniversário - Seremos pandorga perdida no espaço se não tivermos referências em relação ao tempo. Aniversário é uma sinaleira numa esquina do tempo. Nos detivemos, nos vemos e nos revemos. Entre voos e tropeços ali estamos, ante um coral desafinado de vozes amigas, soprando velas e distribuindo fatias de um bolo, que almejamos seja tão doce quanto o recheio de nossos futuros dias.

Escrever para crianças - “Quando escrever para crianças nunca escreva para crianças,” aconselha Fernando Pessoa. De minha parte, quando escrevo para crianças, as palavras dançam, os adjetivos se embalam no balanço, as palavras atam suas tranças e as estorinhas ganham o aroma e as nuanças do amanhecer.

Rumos e tendências - Participo, na cidade do México, de um painel onde e quando se pensava o futuro, seus rumos e tendências. Coube-me dizer: - Se perguntássemos a um monge medieval como seria o futuro, ele responderia convicto: - cheio de mosteiros e catedrais! Bem diversas foram as edificações dos tempos modernos.

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