ANO: 25 | Nº: 6334

Fernando Risch

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Escritor
26/07/2019 Fernando Risch (Opinião)

Cruzamos o limiar

Ultimamente o uso de falsa simetria para comparar governos se tornou regra comum, portanto, tentarei não fazê-lo aqui. Mas cabe dizer que o uso de falsa simetria comparativa é um sintoma, esta falácia está sendo usada para justificar o que não é justificável, uma espécie de mea culpa sem admitir a culpa, como se dissesse: “pois é, eu até posso ter errado, mas o outro lado lá, veja, também estava errado”, e a falsa simetria dança para tranquilizar o arrependimento – e o medo.  
Se há algo que a última campanha eleitoral trouxe foi preocupação (e aqui adiciono esse naco de texto, como uma emenda explanadora, para deixar claro que tentarei não me utilizar da falácia comparativa para conduzir meu ponto): uns temiam algo; outros tinham medo de outra coisa. Cada um com seus temores, apesar de os temores não serem equivalentes e uma destas preocupações ser mais movida por ódio, raiva, bile, que, de fato, medo. Mas, sim, as últimas eleições trouxeram muitas preocupações.
Uma delas, a principal delas, era do rompimento do último "fio de náilon" que segurava nossa pesada democracia feita de vidro vagabundo e de espessura ínfima. Esse temor foi mitigado por discursos amanteigados, que viam nas instituições brasileiras a segurança necessária para que nosso sistema funcionasse feito máquina, sem colocar em risco os ritos democráticos, os direitos individuais e a liberdade de cada cidadão. Estavam errados.
Cruzamos o limiar. Passamos do momento do medo de que algo aconteça a atos que demonstram que está acontecendo. Primeiro, houve um temor identitário: normalizado. Depois, um temor prático, de questões básicas da sociedade: normalizado. Até que chega o autoritarismo e o normalizamos. E quando a barbárie é normalizada, a democracia morre. O IBGE não pode mais divulgar dados de desemprego, o INPE não pode mais divulgar dados de desmatamento, a Fiocruz não pode mais divulgar dados de estudos sobre drogas. Só nesta semana, agentes da PRF, fora de sua jurisdição e sem mandato judicial, invadiram um sindicato que planejava um ato contra o governo, alegando cumprir ordens do Exército; a parlamentar líder do governo ameaçou o jornalista que expôs corrupção do ministro da Justiça, dizendo que "sua hora está chegando"; e a Ancine não mais patrocinará filmes que "atentem contra valores éticos e morais", ou seja, contrários à ideologia do governo. Isso, esta semana.
Não há alarde, gritos de fúria e ruas tomadas de indignação e caos, o que significa normalização e esta normalização significa que o fio de náilon se rompeu e a democracia, na sua redoma frágil, está caindo em direção ao chão. Ainda não se espatifou, porque a quebra deste vidro hipotético, do sistema democrático, é lenta. Como o final da poesia de Maiakóvski: "Até um dia, O mais frágil deles, Entra sozinho em nossa casa, Rouba-nos a luz e, Arranca-nos a voz da garganta, E porque não dissemos nada, Já não podemos fazer nada."; e o final da poesia de Brecht: "Agora, estão me levando, Mas já é tarde, Como eu não me importei com ninguém, Ninguém se importa comigo."
Passamos para o lado de lá, o lado onde falar o óbvio parece não mais surtir efeito, onde expor a barbárie não faz mais sentido, pois esta virou banalidade do cotidiano. De todos os temores da última eleição, não se imaginava que o lado que temia que transformassem o Brasil em uma Venezuela seria aquele que, de fato, faria isso. Já temos a crise financeira e o autoritarismo, só falta esperar que a redoma de vidro que nos sustenta como sociedade civilizada se espatife no chão.

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