ANO: 25 | Nº: 6334

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
27/07/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Perigo de gol

Qual é o objetivo de um time de futebol quando entra em campo?
O que leva a torcida a ir até o estádio de futebol, mesmo quando o jogo passa na TV e as condições climáticas são totalmente desfavoráveis?
Por que os torcedores pagam caro pelo pay-per-view ou TV por assinatura, cancelam outros eventos, reúnem amigos, organizam jantares e bebedeiras, para assistir um jogo de futebol no conforto de sua casa?
Para todas essas perguntas a resposta é uma só: gol. Ainda que alguns tenham a desfaçatez de dizer que o gol é só um detalhe, ele é a razão maior do futebol. Tudo gira em torno do gol: escalações, estratégias, jogadas ensaiadas, esquemas táticos etc.
Mas, porém, contudo e todavia, uma infração muito conhecida (e pouquíssimo entendida) por quem acompanha o futebol, é o tal de “perigo de gol”. Ao contrário do que Arnaldo Cezar Coelho dizia, a regra, neste caso, não é clara, ou seja, não há previsão expressa desta infração eventualmente assinalada pelos árbitros, quase sempre naquelas jogadas tumultuadas nas proximidades da goleira e sempre em favor da defesa (contra o gol).
Assim, ainda que não muito bem entendida, não há dúvida que ela seja uma infração do futebol e é exatamente nesse ponto que cabe uma reflexão. Ora, se o objetivo do esporte é o gol, como que o gol pode representar um perigo? A função das regras deveria ser exatamente o contrário, ou seja, facilitar, incentivar, estimular a maior quantidade de gols possíveis.
O “perigo de gol”, tenha ou não tenha algum fundamento ou explicação, funciona como uma metáfora que sintetiza a interferência nefasta das regras do jogo sobre o jogo. O futebol já sofre com o fato de ser um dos poucos esportes em que o zero a zero é um resultado tristemente recorrente. E o pior é que o zero a zero, além de não ser raro, muitas vezes, em função do formato ou fase do certame, pode ser um resultado desejado, sobretudo em jogos fora de casa ou contra adversários muito superiores econômica e tecnicamente, quando se constata que mais importante que fazer gols, é não levar gols. Um estímulo ao antifutebol que glorifica técnicos retranqueiros e seus esquemas repletos de volantes e zagueiros, praticamente garantindo um jogo duro de jogar e de assistir.
Conta a lenda que, certa vez, um estadunidense assistiu pela primeira vez um jogo de futebol no Brasil e ficou espantado com a vibração da torcida da casa com uma vitória magra por um a zero. Daí, explicaram para ele que ganhar por este placar seria mais ou menos como ganhar por 99 a 98 no basquete. Diz a mesma lenda que ele entendeu, mas para quem está acostumado com placares largos como o do basquete, do vôlei, do tênis etc, é natural estranhar uma vitória magra como esta. Imagina, então, o que ele pensaria sobre pagar um ingresso caro e ficar mais de cem minutos sentado numa arquibancada para assistir um empate sem gols.
Some-se a tudo isso a linha de impedimento que sinaliza que algum jogador do time que ataca está em uma posição que o impede de fazer gol. Como diziam os mais antigos, está “offside” que, traduzindo, significa estar no lado de fora ou, melhor dizendo, na banheira, no lado errado do campo do adversário. Uma regra que impede o gol, somada a uma regra que considera o gol como um perigo e um formato de campeonato que torna o zero a zero um resultado desejável, evidenciam que não são poucas nem fracas as forças que conspiram contra a razão maior do futebol. Em um esporte onde o objetivo é o gol, regras como estas são um contrassenso!


(...) ele é a razão maior do futebol

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