ANO: 25 | Nº: 6354

José Artur Maruri

josearturmaruri@hotmail.com
Colaborador da União Espírita Bajeense bagespirita.blogspot.com.br
27/07/2019 José Artur Maruri (Opinião)

Ponto de vista

O capítulo 2 de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, o qual estamos nos ocupando em nossos últimos escritos, traz importantes esclarecimentos sobre princípios básicos do Espiritismo que lhe diferencia das demais religiões, doutrinas, seitas, como queiram chama-las.
Uma das últimas edições da revista Superinteressante tratou em sua matéria de capa sobre terraplanismo, negação das mudanças climáticas, movimento antivacina etc, a era do chamado “Novo Obscurantismo”, temas que tem causado palpitações não apenas nas redes sociais, mas também nas salas de aula de todos os níveis, restando à comunidade científica oferecer explicações sobre explicações e mesmo assim é confrontada por uma porção de teorias de conspiração.
Para se ter uma ideia, segundo a própria revista suprarreferida, uma pesquisa recente indicou que 4,5% dos pais se recusam a vacinar suas crianças, e outros 16,5% têm receio, ou não acham que a imunização tenha qualquer importância para a saúde de seus filhos. Entre os jovens, esse número sobe para 23%.
Sim, mas e onde o Espiritismo entra nisso tudo?
O também já referido capítulo 2 de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” traz em seu título que “Meu Reino Não é Deste Mundo”, numa indicação clara que não podemos – devemos – nos ater apenas ao que diz respeito ao “nosso” mundo, segundo o próprio Cristo Jesus esclareceu enquanto esteve encarnado conosco, há mais de dois mil anos.
E aí, ao esmiuçar o capítulo 2, o Codificador do Espiritismo, Allan Kardec, foi ainda mais longe e posicionou, ainda no século XIX, o Espiritismo nessa discussão.
No item 5, Kardec estabeleceu como premissa básica para nosso entendimento o ponto de vista correto. Então qual é o ponto de vista correto, segundo o Espiritismo?
Para Allan Kardec, temos dois pontos de vista, o da vida futura e o da vida terrena.
Para ele, “a ideia clara e precisa que se faça da vida futura dá uma fé inabalável no porvir, e essa fé tem consequências enormes sobre a moralização dos homens, porque muda completamente o ponto de vista pelo qual eles encaram a vida terrena. Para aquele que se coloca, pelo pensamento, na vida espiritual, que é infinita, a vida corporal não é mais do que rápida passagem, uma breve permanência num país ingrato. As vicissitudes e as tribulações da vida são apenas incidentes que ele enfrenta com paciência, porque sabe que são de curta duração e devem ser seguidos de uma situação mais feliz. A morte nada tem de pavoroso, não é mais a porta do nada, mas a da libertação, que abre para o exilado a morada da felicidade e da paz. Sabendo que se encontra numa condição temporária e não definitiva, ele encara as dificuldades da vida com mais indiferença, do que resulta uma calma de espírito que lhe abranda as amarguras.”
Por outro lado, se nossa visão estiver focada apenas na vida terrena, “pelas simples dúvida sobre a vida futura, o homem concentra todos os seus pensamentos na vida terrena. Incerto do porvir, dedica-se inteiramente ao presente. Não entrevendo bens mais preciosos que os da Terra, ele se porta como a criança que nada vê além dos seus brinquedos e tudo faz para os obter. A perda do menor dos seus bens causa-lhe pungente mágoa. Um desengano, uma esperança perdida, uma ambição insatisfeita, uma injustiça de que for vítima, o orgulho ou a vaidade ferida, são tantos outros tormentos, que fazem da sua vida uma angústia perpétua, pois que se entrega voluntariamente a uma verdadeira tortura de todos os instantes”.
Evidente que um homem que nada vê além de seus próprio brinquedos e tudo faz para os obter, em pleno século XXI, traz à tona discussões que há muito tempo já foram vencidas pelo Espiritismo que alia à Ciência para vencer temas como terraplanismo e movimento antivacina, ou seja, somente estamos vivendo “a era do novo obscurantismo”, como a própria revista intitulou, porque uma parcela importante da humanidade, erroneamente, está com o foco ajustado no ponto de vista terreno.
De outra sorte, como o próprio Allan Kardec asseverou, “o Espiritismo dá amplitude ao pensamento e abre-lhe novo horizonte. Em vez dessa visão estreita e mesquinha, que o concentra na vida presente, fazendo do instante que passa sobre a terra o único e frágil esteio do futuro eterno, ele nos mostra que esta vida é um simples elo do conjunto harmonioso e grandioso da obra do Criador, e revela a solidariedade que liga todas as existências de um mesmo ser, todos os seres de um mesmo mundo e os seres de todos os mundos”.
Com isso, o leque de visão do espírita se volta à fraternidade universal, fazendo com que essa “solidariedade das partes de um mesmo todo” explique o inexplicável, se considerarmos apenas uma parte.
(Referências: Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 2. Itens 5 e 6. FEB Editora; Revista Superinteressante. Edição 404, julho/2019. Editora Abril)

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