ANO: 25 | Nº: 6334

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
03/08/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Índios

Uma coisa que sempre me intrigou na evolução humana foi a preservação das comunidades indígenas. Nas tentativas, nem sempre bem sucedidas, de impedir que a cultura dos colonizadores contaminasse a cultura tupiniquim ancestral, se percebeu que alguns ficaram, literalmente, parados no tempo.
O mundo todo evoluiu, progrediu, testemunhou alterações vertiginosas de valores, costumes, infraestrutura, tecnologia etc, mas alguns índios continuaram lá, praticamente alheios a tudo isso. O fenômeno da globalização padronizou e continua padronizando diferentes mercados, diminuindo virtualmente as enormes distâncias físicas e, com isso, aproximando culturas, menos algumas indígenas que, preservadas, não perderam sua essência.
Por que, então, enquanto evoluímos tanto e tão rápido, alguns índios não evoluíram? O que a nossa cultura tem que a cultura deles não tem? Na verdade, as razões do dinamismo vertiginoso da cultura ocidental não são desconhecidas e estão relacionadas à atividade econômica, mas a estagnação de algumas culturas indígenas parece indicar que a evolução experimentada no ocidente não é algo inerente à natureza humana, pois ao ver que algumas comunidades indígenas progrediram pouco nos últimos cinco séculos, fica difícil de acreditar que os seres humanos tendem naturalmente ao progresso e evolução. Talvez as únicas alterações experimentadas pelos índios, desde Pedro Álvares Cabral, foram aquelas introduzidas em seu meio pelo evoluído e problemático cara pálida.
Pois, nesta semana, Pedro Bial entrevistou o sociólogo italiano Domenico de Masi, criador da expressão “ócio criativo” que, num exercício de futurologia, acreditando que o presente está confirmando suas projeções feitas no passado, afirmou que a “civilização indígena é a civilização para a qual vamos voltar”. Segundo o sociólogo, já há indicadores de que isso irá acontecer, pois cada vez trabalhamos menos e a tendência é trabalhar menos ainda, rumo ao ócio, essa sim uma tendência humana natural. Considerando as projeções de esgotamento dos recursos naturais do planeta, esta hipótese não pode ser descartada, mas ainda assim é difícil crer numa regressão tão radical. Porém, se o tempo – o senhor da razão – confirmá-la, seria irônico, depois de tudo que fizemos e passamos, voltar ao início e descobrir que os índios sempre estiveram certos. Uma vida de contemplação, somente com atividades de subsistência ecologicamente sustentáveis, propriedade coletiva, organização social singela sem classes nem subordinação.
Em resumo, essa aposta futurista fez lembrar uma cena do filme “Caramuru – A invenção do Brasil” onde em determinado momento o cacique demonstra que trabalhar mais para acumular riquezas e ficar rico teria como objetivo alcançar um padrão de vida que os índios já gozavam, de pouco esforço e muito prazer. Um esforço desnecessário, portanto, pois qual seria a razão para gastar tempo e energia para conquistar uma condição que já possui?

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