ANO: 254 | Nº: 6355

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
08/08/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Vazias

Culto à luxúria, vida sentimental sem compromissos, satisfação plena dos apetites da carne e relacionamentos “amorosos” passageiros. Acompanhados de doses pouco homeopáticas de idolatria a fetiches, veneração ao erotismo e quebra de supostos tabus, tem-se a formação da “religião”, que se extasia com a “divindade” do sexo livre.

Fascinados pelos contos de falsificados “vigários”, há um odor de enxofre na cultura ocidental, que transmite a tóxica ideia de que não faltam benesses na revolução sexual. Dentro da fantasia que busca prazer desprovido de significados profundos e transcendentais, adolescentes são iniciados na precarização da libido, jovens são estimulados a tratar “parceiros” como meros números, e “adultescentes” buscam a curtição da desejada escravidão dos instintos. Todos “felizes” pelo imediatismo e sem culpa aparente na consciência. Inconscientemente, habitam o confessionário de suas existências, buscando apoio em párocos sociais, que sejam reflexos de suas vidas, para que possam justificar seus apetites.

Na busca pela materialização dos prazeres nessa revirada alcova sentimental, nada é mais efetivo do que o apego ao materialismo. Em sociedades marcadas pela perda do imaterial, resta-lhes a devoção a bens, que representam ou garantem a superficialidade dos deleites carnais.

Candace Bushnell, muito reconhecida por ter sido a autora do livro que inspirou a série televisiva Sex and the city, no final de julho deste ano, declarou estar arrependida por ter escolhido a carreira ao invés de ter tido filhos. Conforme entrevista para o Sunday Times Magazine, a escritora, cujo patrimônio líquido beira os U$ 40 milhões, disse que, após seu divórcio, começou “a ver o impacto de não ter filhos e de estar realmente sozinha”. Conforme seu próprio depoimento, quando ela se encontrava na faixa etária dos 30 e 40 anos, não possuía essa visão, mas agora, com 60 anos (e com dificuldades de encontrar parceiros sexuais), tal situação havia se alterado. A diva que inspirou mulheres para uma “libertação” sexual isenta de quaisquer codificações morais e que criou a promessa de que encontrar um amor nessas condições é algo possível, ainda completou: “Eu vejo que pessoas com crianças têm uma âncora de uma forma que as pessoas que não têm filhos não têm”.

Em outra entrevista, ao New York Post, Candace foi mais direta e enfática quanto à situação de ser uma mulher solteira e sem filhos: “[...] o que você vai fazer quando envelhecer? Se você não tem filhos, percebe: ‘Quem vai cuidar de mim?’”. Um belo questionamento para quem sempre viu, na ausência de grandes laços emocionais duradouros, a fórmula para a felicidade contemporânea. Para quem viu o sexo como instrumento para prazer sem compromissos, pensar em filhos como instrumentos para cuidados comprometidos é algo curioso.

A bem-sucedida escritora, que já admitiu ter aplicado botox regularmente e buscado a perfeição facial com preenchimentos estéticos (também pensou em uma cirurgia para rejuvenescimento vaginal, que só não foi feita porque não achou um parceiro para testes... isso é sério!), mostra-se vazia em sua existência. Resultado de suas escolhas e de suas ideias sobre efêmeros relacionamentos. Não há promessa de Paraíso no Inferno. Ainda mais quando nem o diabo do sexo livre quer estar novamente ao seu lado.

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