ANO: 25 | Nº: 6334

Luiz Fernando Mainardi

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Deputado Estadual
14/08/2019 Luiz Fernando Mainardi (Opinião)

A derrota de Macri e o Brasil

Não sei se a notícia foi suficientemente ampla, mas o atual presidente da Argentina, aliado de primeira hora de Bolsonaro, perdeu fragorosamente as eleições primárias no país vizinho. Para quem não tem a informação, na Argentina, antes da eleição presidencial, os partidos realizam uma prévia em que todos os cidadãos são obrigados a votar. Normalmente, os partidos têm mais de um pré-candidato e essa eleição serve para definir quem será o candidato do partido na eleição. Desta vez, todos os partidos tinham apenas um candidato. Então, a prévia valeu como uma antecipação do resultado eleitoral de outubro, que deverá eleger, aí sim, o novo presidente da Argentina.
Pois o Kirchnerismo, quer dizer, a chapa peronista que tem como candidato a presidente Alberto Fernández, ex-chefe de Gabinete de Nestór Kirchner, e como candidata a vice-presidente a ex-presidenta Cristina Kirchner, deu uma verdadeira lavada no atual presidente, que assumiu o poder há quatro anos com a promessa de romper com o ciclo peronista e retirar a Argentina do que chamavam de opressão populista.
Os quase quatro anos da gestão de Macri, entretanto, aprofundaram os problemas do país vizinho, dando indicações claras que o neoliberalismo não tem soluções para os problemas do povo e, ao contrário, tende, a partir de suas políticas, a gerar ainda mais pobreza e exclusão. Desde que Macri assumiu e reiniciou o processo de liberalização da economia argentina, cerca de 3 milhões de pessoas foram jogadas na pobreza e o país foi obrigado, novamente, a recorrer a empréstimos do FMI para dar alguma estabilidade a sua moeda.
A recente história política argentina importa aos brasileiros porque evidencia as diferenças básicas entre as políticas de um governo de centro-esquerda, como eram os de Nestór e Cristina Kirchner, e um de direita, como é o de Macri. Vejam que a grande preocupação dos investidores e agentes do mercado é que uma vitória do peronismo signifique o retorno de políticas como o controle do mercado de dólares e os subsídios para serviços como transporte, além de outras políticas sociais.
Está claro aí os interesses que são subjacentes à disputa política em curso. De um lado, os interesses do povo, representados por Fernandéz e Cristina; de outro, os interesses das instituições financeiras internacionais privadas e dos grandes conglomerados, também internacionalizados, da própria argentina.
A vitória prévia do peronismo na Argentina, indica e consolida uma visão lógica, de que as pessoas tendem a votar conforme suas experiências práticas. Isso significa que mesmo que a dominação ideológica seja forte e insistente na defesa dos interesses das elites econômicas, em algum momento no ambiente democrático, o povo manifesta sua vontade através do voto. Isso quer dizer que a direita não tem condições de manter um projeto de longo prazo em uma democracia. Suas políticas, mais dia menos dia, manifestam seu conteúdo antipopular e, portanto, contraditório com os interesses das maiorias, o que cria uma maioria política contra esses governos.
O "mercado", claro, reagiu com terror à tendência manifestada pelas prévias, de vitória do peronismo. A queda da bolsa de valores argentina na ordem de 37% em apenas um dia é um claro sinal de que o capital também vê com maus olhos a democracia. É o mesmo "terror" com que o mercado viu a possível ascensão de Lula ao governo do Brasil tempos atrás. Já vimos isso tantas vezes que ficamos entre o riso e a raiva. A grande mídia, evidentemente, amplia esses fenômenos como se fossem um recado da natureza indicando a inviabilidade de um governo que não mantenha intactos os interesses do próprio "mercado", leia-se capital.
Nós, ao contrário, saudamos essa tendência do povo argentino. Tem um significado de consciência política fundamental e traz alento ao futuro próximo do Brasil, afundado que está em um cenário que funde os interesses de uma extrema-direita conservadora, antidemocrática e anticientífica, e um neoliberalismo extremado, antipopular dos "Chicago boys". Se compararmos as políticas desenvolvidas por Macri e as que, agora, Bolsonaro e Guedes desenvolvem aqui, veremos que o sentido é o mesmo.
Lutaremos para que aqui também a resposta do povo seja igual a que está acontecendo na Argentina. Resistência, democracia e luta popular. Esse é o caminho para a vitória do povo no futuro bem próximo.

Líder da bancada do PT na ALRS

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