ANO: 25 | Nº: 6382

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
15/08/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Proletários de luxo

Qual o poder de um registro fotográfico? Ter a capacidade de parar o tempo e deixar um importante recado visual para a história? Creio que a mágica de uma fotografia repouse na extração de sentidos mesmo com a ausência de sons e imagens, ao ponto de eternizar a célebre expressão “uma imagem vale mais que mil palavras”.

Nos últimos dias, o político Marcelo Freixo, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), foi fotografado na beira de uma piscina do famoso, elegante e requintado hotel Copacabana Palace. Com diárias iniciais que ultrapassam, com folga, o valor de um salário mínimo nacional, o defensor do “socialismo e da liberdade” (como é possível esse casamento?) foi alvo de inúmeras críticas por sua “participação” no capitalismo “selvagem”, apesar da oposição constante que faz a esse sistema econômico. Afinal, ele não foi fotografado em qualquer hotelzinho mequetrefe de quinta categoria, mas sim em um de cinco estrelas.

A grande acusação dos críticos foi sobre a enorme hipocrisia que paira sobre o esquerdismo. Pregam uma coisa para a sociedade e outra para seus companheiros. Freixo, o desarmamentista, que em 2016 declarou no Twitter que “mais armas não significam mais segurança”, alegando que os “estudos” mostram o oposto, mas que contava com 10 agentes de segurança bem armados para sua proteção, também apelou àquela rede social para contrapor seus opositores no caso do hotel. Em sua análise, aqueles que condenaram sua ida a um espaço da elite, são coloniais; os que não aceitam que a esquerda possa ir a um local sofisticado são toscos; e os sujeitos que não aceitam que sua mulher possa “ganhar melhor” que ele para pagar a hospedagem no Copacabana Palace são flagrantes machistas. Sua esposa, Antonia Pellegrino, também respondeu pelo Twitter dizendo que nem todos os progressistas são socialistas e pobres, ao passo que ela é uma progressista porque quer dividir riquezas, finalizando com uma bela, “lacradora” e marcante #Socialismo.

O descompasso entre as respostas e aquilo que foi dito por aqueles que desaprovaram sua atitude foi evidente. Ninguém visou impedir a ida do casal àquele ambiente, ou muito menos afirmou que a mulher não pode custear as despesas de ambos. O que se cobrou foi a falta de coerência de quem tanto detona o capitalismo e suas “elites”. E a incoerência é tão grotesca, que a esposa de Freixo, postou #Socialismo, mesmo declarando em linhas anteriores que nem todo o progressista era socialista. Isso para não mencionar o fato de que o desejo dela de dividir riquezas nunca começaria com as suas próprias riquezas, que poderiam ser utilizadas (divididas) para aplacar parcialmente a miséria econômica de inúmeras pessoas pobres, ao invés de gastá-la na “futilidade” de um hotel de “elite”.

Cobrar coerência de quem não a possui beira às raias da loucura. A fotografia de um socialista aproveitando uma piscina em um espaço “de elite” mostra como todos devem ser iguais, mas alguns mais iguais que outros. Os privilégios da elite castrista no poder em Cuba; o palácio, os charutos e os banquetes frequentados por Nicolás Maduro; os inúmeros políticos esquerdista-socialistas milionários gozando de bens típicos do capitalismo; e a humilde “piscininha” frequentada por Freixo, só mostram como é um bálsamo para a alma ser um magnífico proletário de luxo.

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