ANO: 25 | Nº: 6385

Fernando Risch

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Escritor
16/08/2019 Fernando Risch (Opinião)

Já pensou se nunca mais chovesse?

Não sei se você, leitor, já pensou isso, mas eu já. Às vezes, vou além. Penso: o que restará? Subitamente, uma realidade Mad Max não parece tão irreal. Esses tempos eu estava lendo sobre o impacto da Amazônia nas chuvas aqui no Sul. Quem poderia imaginar que umas árvores lá em cima, longe, nos afetava?

Não sei quem poderia imaginar isso, especificamente. Mas eu imagino os cientistas que passam a vida a estudar fenômenos meteorológicos, biológicos e qualquer outro "ógico" que impacte nossas vidas. Essas pessoas andam tendo muito trabalho, naquele exercício sempre constante de dizer obviedades a paredes sem ouvidos. Deve ser cansativo.

Tivemos algumas secas difíceis em Bagé. Teve a de 1989, a 2006 e aquela do ano passado, com um belo de um racionamento de água. Eu penso em qual seria a utilidade da barragem da Arvorezinha, num futuro não muito distante, se simplesmente não chovesse. Já pensaram nisso? Todo esse esforço, todos esses anos, para que simplesmente não a consigamos encher. Ou então consigamos, depois esvaziamos e fim. É um cenário desagradável.

Eu tenho um amigo que planta soja. Antes ele plantava arroz, mas sabe como é, acabou indo para soja. Ele sempre reclama do clima. Ou chove demais ou não chove. É sempre um problema, uma incerteza, um nervosismo constante. Esses tempos ele estava nervoso com algo relativo aos chineses. Será que eles ainda vão comprar de nós?, ele me perguntou. Mas o clima espantou esse pensamento. Ele tinha coisas mais palpáveis com o que se preocupar. Não adiantava pensar na China se não tivesse chuva na soja.

Imagine se nunca mais chover? As pradarias do pampa se tornando um lindo deserto arenoso, um sertão semiárido onde a terra se abre em crateras sem vida. Difícil de imaginar. Ou não. Como diria um outro amigo, este paulista: it's just questions. São apenas questões. Nos faz pensar.

Uns dizem que estamos chegando na data limite para que isso não aconteça, outros dizem que já passamos do limiar para salvar os pingos d'água do céu e o verde da terra. O que eles não discutem é uma coisa: vai acontecer. Talvez seja melhor ignorarmos, fingirmos que não é problema ou que é um problema insolúvel e quando a crise chegar, o colapso acontecer, bom, aí nós pensamos no que fazer.

Por enquanto, vamos assim, levando na brincadeira, derrubando o que ainda há em pé, sem razão nem motivo, apenas para derrubar e dizer que, sim, se pode pôr abaixo uma centena de milhares de acres de árvores. Depois, quando a última gota d'água secar e do chão só brotar pó, talvez nossos corpos já estejam adaptados a uma nova formação biológica que tem na violência o meio de sobrevivência, seja física, verbal ou psicológica, contra fauna ou flora, racional ou irracional, e possamos nos alimentar com o metal do cano de uma Taurus.

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