ANO: 25 | Nº: 6332

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
17/08/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Bagé, segundo Cezimbra Jacques (1883)

Em obra histórica de Cezimbra Jacques,sobre os costumes gaúchos, há a seguinte referência sobre Bagé: "Começou a formar-se esta cidade ao entrar o século. Já muito antes dessa época existiam moradores nas pontas do Rio Negro e no forte de Santa Tecla, feito pelos índios Tapes, de ordem dos jesuítas e mandado reconstruir pelo general Salcedo, quando pretendeu apoderar-se de Rio Pardo: os moradores do Rio Negro reuniram-se em Bagé construíram muitas casas e a igreja de São Sebastião. Mais tarde, foram para ali alguns habitantes de Santa Tecla; de sorte que em 1812 já existia muita gente vivendo nesse lugar. Acampando ali, uma grande força que compunha o exército do capitão-general Dom Diogo de Souza começaram a aglomerar-se muitas famílias brasileiras; e assim foi que se formou uma freguesia e, como tal, foi reconhecida em 5 de janeiro de 1846. Pela lei provincial nº.65 do mesmo ano, recebeu ela o título de vila. Depois destes acontecimentos, continuando sempre a estacionar tropas nessa altura, foi a vila de Bagé assim alargando seu comércio e ampliando a edificação; e em 15 de dezembro de 1859 alcançou as prerrogativas de cidade. Ela é uma das mais simpáticas cidades do Rio Grande do Sul, parecendo provir esse atrativo sublime da configuração de seu solo e naturalmente de serem os seus primeiros habitantes muito hospitaleiros e afáveis. Está situada ao norte do Rio Negro, próxima a este rio, sobre o ribeiro de seu nome, e abas de três cerros gigantescos que de muito longe se avistam os seus cumes azulados, os quais parecem confundir-se com o azul do céu. Do lado oposto a estes cerros vê-se desdobrarem-se as superfícies verdes das campinas, elevando-se e abaixando-se desordenadamente, como se fosse imenso sol daquela cor desenrolando-se à mercê da brisa. "
Em nota de rodapé, Cezimbra Jacques aduz que o "nome Bagé proveio de um índio assim chamado, o qual viveu neste lugar, no século XVIII. Acha-se ele sepultado em cima do cerro de Bagé, não longe da casa de dona Ritta, mãe do finado capitão João Ritta, o qual consta-nos que sabe o lugar da sepultura. Era, sem dúvida, esse primeiro habitante de Bagé, oriundo dos Minuanos, que se aliaram aos portugueses.
Em outro trecho, quando recorda as antigas danças, especialmente as quadras referentes ao "tatu" diz ele: "O tatu foi encontrado/ Lá no cerro de Bagé/ com seu lacinho nos tentos/Montado num jaguané".
Noutro instante, ao cuidar da população de algumas localidades informa que " é a província povoada por 364.526 habitantes livres e 66.519 escravos.". E que " Bagé abriga 16.952 habitantes e 4.816 escravos", dado que impressiona pois, ao que parece em 1883, a quarta parte da cidade era constituída por pessoas em trabalho servil.
E ao tratar sobre o drama, a comédia e a música "essa arte sublime que tem por fim exprimir o belo por meio de sons elementares. Quantos Carlos Gomes não temos nós perdido por falta de recursos? Em Bagé, vimos um moço de admirável aptidão musical, cujas produções nos deixaram a alma repleta de prazeres". Quem terá sido? Trabalho para os pesquisadores.
E ao falar sobre a força pública, informa que o 5º Regimento de Cavalaria, em Bagé, dá " destacamentos de sua força para a fronteira, desde o Pamantin até o arroio da Mina, ao pé de Aceguá, e se acham esses destacamentos habitando também em quartéis cobertos de palha, cujo material se vai tornando escasso em certos pontos, faltando principalmente madeiras".
João Cezimbra Jacques nasceu em Santa Maria (1849-1922). Militar, participou da Guerra do Paraguai como "Voluntário da Pátria". Seguiu carreira no Exército, tornando instrutor do Colégio Militar de Porto Alegre, onde fundou o primeiro Grêmio Gaúcho, 1898, matriz dos futuros Centros de Tradição. Chegou a major. Estudioso das coisas rio-grandense, tendo publicado vários livros sobre o assunto, é referência obrigatória de consulta sobre nosso folclore. É patrono da cadeira nº 19 da Academia Rio-Grandense de Letras. Sua maior contribuição literária foi a criação do conto que simboliza a identidade indígena de Santa Maria (o índio Imembuy), considerada lenda e personagem que se ombreia com Ana Terra, de Érico Veríssimo. Seu "Ensaio sobre os costumes do Rio Grande do Sul" é considerado o primeiro livro escrito e publicado por um santa-mariense, estando incluído entre as obras pioneiras no retrato do Rio Grande. A Universidade Federal de Santa Maria reeditou sua principal obra, ao se comemorar os 150 anos de nascimento de Cezimbra Jacques.

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Pesquisa: "Ensaio sobre os costumes do Rio Grande do Sul: precedido de uma ligeira descrição física e de uma noção histórica", Santa Maria: Ed. Da UFSM, 2000,

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