ANO: 25 | Nº: 6334

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
17/08/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Primeiras e últimas impressões

Não testemunhei o Maracanaço, mas creio que nem precisava. Talvez quem, como eu, tenha apenas lido, ouvido e visto as inúmeras vezes que esta história foi repetida ao longo das décadas que se seguiram, tenha ficado até mais impressionado com o episódio do que as próprias testemunhas oculares desta inesquecível página do futebol mundial.
Documentários, reportagens, artigos e até filmes registraram e relembraram a derrota para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950. Ao longo dos meus cinquenta e poucos anos de vida perdi a conta das tantas vezes que reprisaram esta história do que teria sido o maior fiasco do futebol brasileiro de todos os tempos.
Sem dúvida, dá para imaginar o tamanho da decepção de perder uma final da Copa do Mundo, em casa, logo na primeira vez que sediou o evento do esporte predileto da nação tupiniquim. Todavia, de tudo que li, vi e ouvi, o que mais me impressionou sempre foi a "crucificação" do goleiro Barbosa, como sendo o vilão daquela derrota.
Em 1982, quando a Seleção Brasileira foi eliminada pela Itália, alguns até tentaram colocar a culpa no jogador Cerezo por ter falhado em um lance que terminou oportunizando um gol da Squadra Azzurra. Depois, em 1986, fomos eliminados nos pênaltis pela França e também tentaram colocar a culpa no Zico que desperdiçou uma cobrança de pênalti no segundo tempo, que poderia ter evitado a decisão por pênaltis nas quartas-de-final.
Cerezo e Zico, contudo, não foram culpados pela maioria da torcida nem da crônica esportiva, como foi Barbosa em 1950. O goleiro chegou a enfrentar uma grande depressão três anos depois do Maracanaço e era apontado na rua como o responsável por ter feito o Brasil inteiro chorar. Em 1993 foi impedido de visitar a seleção que estava na Granja Comary se preparando para enfrentar o Uruguai pelas eliminatórias da Copa de 1994. Ficou tão triste que mudou-se do Rio de Janeiro.
Sem dúvida, Barbosa foi o maior ícone de um drama que é o pesadelo de todos os goleiros de futebol, pois não interessa quantas defesas difíceis eles tenham feito ao longo de sua carreira profissional, basta uma falha feia na hora errada para que tudo seja esquecido como num passe de mágica. Perder o emprego até nem seria o pior, diante do esquecimento ou não reconhecimento de tudo de bom que fez antes.
Mas quem de nós está livre de enfrentar um drama parecido com o do Barbosa? Sobretudo no fim da carreira ou da vida. Todo o patrimônio moral que levamos décadas para construir é tão frágil que um ou poucos erros nos últimos minutos da partida são capazes de colocar tudo a perder.
Muito se diz que a primeira impressão é a que fica, mas o caso Barbosa – e tantos outros – parece indicar que a última impressão também tem a mesma capacidade. A diferença principal é que a primeira impressão, por ser a primeira, pode ser desfeita em segundas ou terceiras oportunidades. Já a última impressão tende a ficar para a posteridade, ou seja, não adianta tudo de bom que alguém tenha feito na vida se, lá no fim, tenha feito algo muito ruim ou tenha cometido um erro muito grave, sem novas oportunidades de desfazer aquela última má impressão.
O Barbosa, por exemplo, teria conseguido uma absolvição póstuma segundo sua filha Tereza e um jornalista da crônica esportiva nacional, que traduziu seu sentimento logo após o vexame do 7 a 1. O jornalista Diego Garcia escreveu (espn.com.br em 09/07/2014): "Segundo o falecido cronista Armando Nogueira, Barbosa foi 'certamente, a criatura mais injustiçada na história do futebol brasileiro. Era um goleiro magistral. Fazia milagres, desviando de mão trocada bolas envenenadas. O gol de Ghiggia, na final da Copa de 50, caiu-lhe como uma maldição. E quanto mais vejo o lance, mais o absolvo'. Pois agora, tanto Tereza quanto seu pai, onde quer que esteja, podem ficar tranquilos: a 'maldição' foi enterrada nesta terça. A sete palmos abaixo da terra. Em cada um dos sete gols alemães. Descanse em paz, Barbosa."

 

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...