ANO: 25 | Nº: 6334

Fernando Risch

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Escritor
23/08/2019 Fernando Risch (Opinião)

A pós-censura

Não fui censurado, se é o que você está pensando, pelo menos não da forma habitual, como se idealiza. Apesar de a censura, aquela tradicional, estar tirando o rostinho para fora, no sorrisinho da cadela que já cruzou o cio e no ovo já eclodido da cobra. Mas não é o que acontece. De certa forma fui censurado, sim, mas de outra maneira.

Alguns teórico previram nossos tempos, com teses que sempre se alinhavam na escalada tecnológica, até chegar no total deslocamento da realidade por uma farsa completa. Demorou para que acontecesse, mas chegou o momento. E em todas essas teses, a maneira tradicional como se vê as coisas, como elas são perpetradas, ocorre de uma forma diferente.

Ninguém veio até mim e disse: "Fernando, não escreva sobre isso", em tons generalescos. Não, essa liberdade ainda existe e até então é plena para que eu disserte o que minha índole duvidosa permitir, desde que dentro do bom senso social. A censura partiu de mim, a partir do que eu estimo que seja relevante escrever sobre aquilo que acho relevante pontuar, dentro do espectro que me incomoda, sobre o governo Bolsonaro.

Você pode ser um defensor, adorador, entusiasta ou simplesmente um acompanhador do presidente, mas isso pouco importa. Tampouco importa se você está arrependido ou orgulhoso, se está feliz ou não. O que importa é a verdade, qual o modus operandi do regime, se assim podemos chamá-lo. Como ele age e por que age.

Bolsonaro assumiu uma tática moderna, utilizada pela extrema-direita crescente, alimentada por Steve Bannon, em vários lugares do mundo. A tática baseia-se no conflito constante, na criação de crises diárias e com ações e discursos absurdos, obrigando opositores ou simpatizantes sensatos a perderem tempo refutando o ilógico, o hediondo, dizendo simplesmente o que é óbvio. Por isso você se pergunta todos os dias quando acorda: que absurdo Bolsonaro falará hoje?

Há, sim, certa naturalidade nas falas do presidente, mas há, também, propósito. A tática adotada pelo regime Bolsonaro, na dialética, seria antítese em cima de antítese, sem síntese alguma, apenas pela ruptura do status quo, sob o propósito de conflito, não de solução. Não chega a ser cortina de fumaça, como pensei que fosse e já escrevi aqui algumas vezes. O propósito é o caos.

Enquanto opositores e sensatos perdem tempo respondendo a um absurdo ou a alguma mentira, enquanto perdem tempo denunciando uma ação catastrófica sem sentido, os arquitetos do caos já preparam uma segunda antítese, uma nova pancada de absurdo sobre a cabeça da realidade, deixando atônitos todos aqueles que ousam refutá-lo, já não sabendo mais de que questão escandalosa e desproporcional se está tratando.

Uns têm energia e carimbam ponto a ponto os absurdos de Bolsonaro, num exercício extenuante. Eu me censurei. Não porque tenho medo ou coisa do tipo, mas porque não consigo mais estabelecer um raciocínio lógico para uma crítica. Não sei mais sobre o que escrever, porque tudo parece repetitivo e ordinário.

Parece que cada vez que ouso me sentar para escrever uma obviedade sobre Bolsonaro, aquela obviedade já foi escrita na semana anterior, ou parece que o absurdo do momento já não soa tão absurdo quanto o absurdo do mês passado. E, nesse exercício constante de pensar, numa pedalada sem sair do lugar, fui me censurando.

Na era da pós-verdade, criada por Bannon, temos a pós-censura, que obriga cada indivíduo a se autocensurar por falta de capacidade de síntese para dissertar sobre o que é relevante. Censurei-me porque ultrapassamos o limite do bom senso, quando a barbárie é normalizada, se tornando o estado comum da realidade, e mesmo tendo a liberdade para se expressar, não achamos mais palavras ou propósitos para falar o óbvio num país onde a razão morreu com a educação, e já achamos normal que o presidente gaste a sua e a nossa energia teorizando sobre quantas vezes cada brasileiro deve defecar.

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