ANO: 25 | Nº: 6334

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
24/08/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

O bajeense que foi ministro na Argentina

É hábito. Quando descubro algo ou alguém com o nome "Bagé" mergulho logo na verificação. Há dias, um amigo indaga sobre o conterrâneo que fora ministro na Argentina. Nada sabia, mas tal desafio obriga à pesquisa. Na Cúria diocesana, que possui importantes registros longevos, há o registro do batismo. Culmino em obra emprestada com biografias platinas. E ali acho o verbete José Antônio Terry, nascido em Bagé, em 31 de outubro de 1846, "filho de pais exilados". O último fato impõe contextualização. Vou ao almanaque.
O alfarrábio ensina que em 1846 foi criada a máquina de costura. Nasceu a Princesa Isabel, também Búfalo Bill. Marx e Engels publicam "A Ideologia alemã". Acontece a guerra mexicano-americana. A aparição de Nossa Senhora em Salette, França. E morre o Papa Gregório XVI. Pelas vizinhanças termina o levante farroupilha no Ponche Verde. Há pelejas pelos lados orientais. O Uruguai vê a luz. Oribe e Artigas. Finda a Cisplatina os entreveros se sucedem pelos lados do Rio da Prata. Hosanas, eis que pela Lei Provincial nº 65, de 5 de junho de 1846 a Capela de São Sebastião de Bagé é elevada à categoria de Vila, ganhando a carteira de identidade como município.
Nesta época, se acoitam José Antônio Mariano Terry e sua grávida mulher, Sostera Costa, em recanto dessa modesta povoação oriunda de acampamento castrense. A família tem origem no avô Gabriel Coste, nascido em 11 de julho de 1740, em Collonges-la-Rouge de Corrèze, França, que emigra para a Argentina, espanhola seu nome (Costa) e se matrimonia em 1772 com Juana Nuñez Sinforosa Maria de la Torre. A linhagem do citadino tem figura de grande expressão histórica, suficiente para merecer mais alargada referência, pois José Antônio era sobrinho do general Jerônimo Costa, militar que combate o Império Brasileiro, esteve em Ituzaingó, foi chefe da escolta do governador Manuel Dorrego, tendo sido preso por Lavalle quando se nega a entregar o forte de Buenos Aires. Em 1833, integra o exército de Rosas. Em 1833, rejeita, na Ilha Martin Garcia, a se render à frota francesa quando do bloqueio do Rio da Prata. Ali, à frente de 100 soldados e pouco armamento, enfrenta força composta por 250 franceses e 150 uruguaios, mas acaba preso, e depois libertado. Em sua agenda, está a participação da batalha de Cagancha, na campanha do Uruguai. Vence em Arroyo Grande, derrotando Fructuoso Rivera (1843). Sitia Montevidéu com Oribe. Retornando a Buenos Aires, incorpora-se a Urquiza. Luta em Caseros. E aqui entra um número enorme de combates e refregas. Em tempos de Sarmiento e Mitre esteve na batalha de Pavón, Luján, e La Matanza. É derrotado em Villamayor. Aprisionado, é morto (1856). Como se vê, era um parente guerreiro e heroico.
Esse cenário oriental, com argentinos em posições políticas que se sucediam em diferentes matizes, explica a fuga do casal José e Sostera. Como São José e Maria para o Egito. Só que eles migram para a pequena São Sebastião de Bagé. Onde os exilados não demoraram muito.
É que o pequeno José Antônio tem a infância em Buenos Aires. E jovem se gradua em Direito na Universidade daquela cidade, em 1871, dedicando-se à Jurisprudência. Sua tese de capacitação se chama "Cidadania". Inicia uma promissora carreira de jornalista nos diários "La Prensa", "La Discusión" e "La Nación". Logo se transfere para outras atividades. Ocupa cargo no Banco Hipotecário Nacional, na Caixa de Conversão e na Direção das Ferrovias. Finalmente ingressa na política, sendo escolhido deputado e senador na Província de Buenos Aires. E depois, senador federal.

José Antônio Costa Terry casa em 19 de maio de 1878 com sua prima, Leonor Quirino Costa, tendo obtido licença especial para consorciar-se em vista do impedimento derivado do parentesco próximo. O casal teve três filhos: José Antônio Alexandre, Leonor Irma e Sotera Fernanda.
Quando assume o presidente Luís Sáenz Peña, em momento de grande instabilidade, Terry é nomeado Ministro da Fazenda (agosto de 1893), logrando dominar a crise financeira "com uma política de austeridade e prudência ". Embora o sucesso, os acontecimentos levam o presidente Sáenz Peña à renúncia, sendo sucedido por Juan José Romero. Anos após, quando assume o presidente Júlio Argentino Roca, retorna ao Ministério da Fazenda em julho de 1903, mais uma vez desempenhando gestão exitosa, embora as críticas ao seu projeto de unificação das dívidas públicas. Em vista destes transtornos, mas de sua relação amistosa com Roca, é transferido para o Ministério das Relações Exteriores, substituindo o falecido Amâncio Alcorta. Nessa posição, viaja para o Chile e firma com esse país um tratado de paz, conhecido como "Pactos de Maio", que afasta definitivamente o perigo de guerra entre ditas nações conflitadas pela indefinição de suas fronteiras. Esse acerto foi criticado por autores argentinos ante a falta de reciprocidade entre os compromissos assumidos e pela obrigação platina de reduzir seu armamento até que os chilenos atingissem idêntico patamar. Também aceitar a mediação da Grã-Bretanha em eventual discórdia; e por ter a Argentina assuntos diplomáticos pendentes com a Inglaterra, como a Malvinas. Terminado o governo de Roca, assume Manuel Quintana, e José Antônio permanece no cargo até o falecimento do presidente, em março de 1906.
Em 8 de dezembro de 1910, morre o bajeense José Antônio Terry, estando sepultado no cemitério de La Recoleta, em Buenos Aires.
Há em Tilcara, nos Andes argentinos, província de Jujuy, o "Museu Regional de Pintura José Antônio Terry", criado por Decreto Presidencial em 1956. O Estado adquire a propriedade e obras de arte do pintor José Antonio Terry. No primeiro pátio há duas salas em que são exibidas as pinturas de Terry, concebidas naquela cidade, com retratos da esposa Amália e das irmãs Leonor e Sotera, além do mobiliário colonial. Noutra, os trabalhos feitos em Buenos Aires, Madri, Santiago, San Pedro e San Sebastian (Espanha). No andar superior, era o atelier. Uma lareira a lenha, os retratos do pai José Antonio Terry, da mãe Leonor e a fotografia de "Seu Cântaro", original comprado pelo governo francês para o Museu de Luxemburgo. No atelier, além de muitos quadros de familiares há uma obra inacabada, o retrato da mãe Leonor. Neste andar superior, em outros compartimentos, são feitas exposições, palestras, conferências, atividades artísticas e culturais, audiovisuais e eventos. O pintor José Antônio Terry é considerado verdadeira "instituição argentina" e líder dos surdos no país. Nasce em 1878 e falece em 1954.
Seu homônimo pai, José Antônio Terry foi advogado, jornalista e político considerado por alguns como o "Rio Branco" da Argentina. Um bajeense ilustre.

 

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