ANO: 25 | Nº: 6334

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
29/08/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Abas retas e “shortinhos”

O preconceito é legítimo. Não aquele que estrutura a discriminação injustificada de grupos sociais, mas sim o que deriva de juízos morais que venceram os testes do tempo e foram julgados como razoáveis para que uma sociedade possa estabilizar-se e progredir. Assim, aqueles que rejeitam o preconceito acabam por ser os artífices da decadência civilizacional.

Há pouco tempo, ao término de uma atividade, optei por retornar a pé para minha residência. Era um dia com temperatura agradável, e o centro da cidade de Bagé estava parcialmente bloqueado para a circulação de veículos em razão do programa Sábado Azul, que consiste na exposição de produtos e serviços nas vias públicas. As ruas, que majoritariamente recebem carros, passam a receber pessoas. Além de questões comerciais, o objetivo moral é aproximar famílias e talvez estreitar laços de convívio harmônicos em um ambiente que habitualmente se mostra demasiadamente passageiro.

No alargado palco plural desenvolvido, foram comuns as presenças de casais, animais domésticos e famílias de variados espectros econômicos e sociais. Algo válido e que tenta desacelerar o relógio da vida, para que nossa passagem não seja tão rápida e desconectada. No entanto, na mesma proporção que havia esse estímulo ao florescimento, abundaram pragas urbanas com o propósito de desertificação.

E não me refiro aos pombos, alvos de preconceito social, mas sim a alguns pequeninos seres humanos, com idades que variam entre os 10 e os 15 anos de idade, que se locomovem em pequenos grupos e sempre tendem a causar barulho por onde transitam. Nessas tribos, existem vestes e maneirismos facilmente identificados com culturas musicais, que pregam a violência, o tráfico de drogas e a hipersexualização. Como se não fosse possível identificá-los, alguns membros ostentam caixinhas de som que amplificam suas “canções” prediletas. Tão idênticos como um enorme grupo de pinguins, os “machos” caracterizam-se pelos berros de gírias/palavrões e portam bonés gigantescos com um tipo de aba; boa parte das “fêmeas” usam pequenos pedaços de jeans entre a cintura e o término de suas nádegas que deixam enrubescidos as espécies mais velhas. E mais: são machos e fêmeas, pois seus diálogos giram em torno de supostos casos amorosos e sexuais, o que denota um caráter parcialmente reprodutivo.

Em casos mais pontuais, alguns tentam, por meio de uma tábua com quatro rodas, deslizar com desenvoltura pelas calçadas, oferecendo risco a crianças e adultos; em várias oportunidades, esse objeto faz barulhos estrondosos ao se encontrar com o solo através de manobras sempre incompletas. E, se possível, a cada quadra, alguns membros desses bandos optam por bater em alguma placa de sinalização como se estivessem demarcando territórios. Em todos os casos, é muito presente a ausência dos pais (ou seriam meros reprodutores?).

Sem maiores especificações, sob pena de ser enquadrado como preconceituoso, o fato é que há um desalinhamento moral entre a proposta familiar e as novas gerações. Um desencontro originado pela feroz negação de qualquer perspectiva que possa avaliar criticamente uma conduta humana. Mesmo que Theodore Dalrymple tenha afirmado que “sem preconceito, não há virtude”, o curioso seria descobrir se algum desses jovens humanos saberia sequer definir o que é virtude.

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