ANO: 25 | Nº: 6385

Fernando Risch

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Escritor
30/08/2019 Fernando Risch (Opinião)

O incrível caso do cargo que encolheu

Até pouco tempo, a ideia de distância entre eu, um mero cidadão desmiolado, e o presidente da República era abissal, irreal. O presidente é uma figura tão imensa, tão poderosa, que seu distanciamento do povo sempre foi impalpável. Não que o presidente se colocasse numa redoma de cristal, isolado da população, mas seu contato direto com o povo, fora em comícios e eventos, era algo impensável. Ninguém pega o telefone e disca ao presidente, a não ser que tenha igualmente poder, o que nem um deputado do baixo clero tem.

Muito se reclamou desta distância, que, com este isolamento, o presidente não olha para o povo como deveria. Mas é um distanciamento necessário. O presidente pode ser gente como a gente, ser simples, não achar necessário luxos e regalias, mas a pessoa que ostenta o cargo precisa ter decoro com tal status. Não é porque o presidente é simples que ele dará uma entrevista coletiva vestindo a camisa do seu time, falando de boca cheia, mastigado pão francês com leite condensado. Há de se ter respeito pelo cargo, porque o cargo a ele não pertence; pertence ao povo.

Em algum lugar do Brasil, existe uma pessoa com o ego inflado, uma pessoa se sentindo tão, mas tão grande, que terá uma história para contar aos netos. Ele vai se gabar de ter feito e postado uma montagem sexista e de mau gosto na internet, na qual compara a primeira dama da França com a brasileira. Ele contará aos netos que o próprio presidente da República gostou da sua publicação, pedindo, em uma mensagem escrita pelo próprio, em tom jocoso e risonho, que ele não humilhasse o presidente francês com aquela comparação, seguido de ká ká ká's debochados.

Esta pessoa vai contar aos netos como aquela brincadeira ofensiva de péssimo gosto criou uma crise internacional entre os países. Se ainda existir planeta para que o neto desta pessoa viva e se ainda existirem escolas em que se estude história, ele dirá: "Sabe aquilo que você leu no colégio? Fui eu que fiz!". E esse anônimo viverá com este troféu na prateleira, com o ego inflado, nas nuvens.

O problema é que este anônimo segue anônimo. É um cidadão comum, como eu e você. A sua vida segue a mesma e assim provavelmente seguirá pelo resto de seus dias. Então, constata-se que ele, o homem que publicou a imagem das primeiras damas, para deleite do presidente, não cresceu. Ele segue o mesmo, imutável, em sua casa, com sua família, em algum interior deste país, rindo à toa, sem nenhum status especial que lhe tenha dado direito de tal comunicação.

Se ele não cresceu ao ponto de se colocar num diálogo direto com o presidente, criando uma crise com a França, o que aconteceu então? Como que este cidadão comum, que segue sendo um cidadão comum, conseguiu tal feito? Só há uma resposta: a presidência encolheu. O presidente conseguiu a façanha de transformar o cargo o qual ostenta, imenso por natureza, em um simulacro de líder, uma miniatura de mau gosto daquilo que se espera de um presidente.

Enxugou-se ao ponto de se igualar aos energúmenos, aos baixos, aos néscios anônimos que, na internet, bebem da infâmia, da violência sexista, para se erguerem a um patamar de conquista pessoal. Nunca se teve algo tão pequeno no cargo da presidência, nem nos anos mais sombrios do chumbo. Nem um microscópio encontra o presidente no Palácio do Planalto.

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