ANO: 25 | Nº: 6330

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
31/08/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Maria Martins Rossel e a Biblioteca Pública Infantil

Embora não seja conterrânea são profundos os laços que vinculam a Professora Maria Martins Rossel a Bagé, tanto por sua linhagem como pelos admiráveis serviços que prestou à educação neste município. Nasceu em Pelotas em 30 de junho de 1907, filha de José Antonio Martins e Elda Câmara Martins.
José Antonio Martins, seu pai, é considerado pelo historiador Coralio Cabeda como o bajeense pioneiro na industrialização da Campanha gaúcha; e por Carlos Reverbel como o cidadão que usou sua fortuna para progresso de sua comunidade. Era neto do dirigente farroupilha Antonio José Martins Coelho, de Piratini, procurador geral da República Rio-Grandense, ligado por parentesco a Silveira Martins. José Antonio gradua-se em Agronomia, Pelotas e propugna a modernização do setor primário. Aqui organiza a empresa rural Antonio Maria Martins & Filhos, objetivando a exploração da indústria pastoril, considerada a primeira do estado, atingindo alto grau na criação de bovinos, apenas superado pelo Visconde Ribeiro de Magalhães. Tinha um rebanho ovino de 13.000 cabeças; adquire a Charqueda Vacacaí, em São Gabriel, aonde chega a plantar 1.200.000 pés de eucaliptos. Seu complexo negocial abrigava uns 500 empregados, 30.000 cabeças de gado vacum; 1.000 cavalos, além dos ovinos já referidos. Com a crise de 1929, falência do Banco Pelotense e a concorrência do charque platino, para pagar suas dívidas entrega ao Banco do Rio Grande do Sul 20.731 hectares, referentes às Estâncias do Jaguarão-Chico, Taipa, Cerrito e Estância do Céu, além da Charqueada Vacacaí, embora os esforços do advogado Maurício Cardoso e a compreensão do interventor Flores da Cunha. Maragato, suas propriedades foram invadidas e depredadas em determinados episódios políticos. Par atender as dívidas vende a Estância do Batovi a particulares. Além de Maria, o casal teve as filhas Hildinha Martins Macedo e Helena Martins Azevedo. Faleceu em São Gabriel.
Maria casou com o bajeense José Magalhães Rossel, na Capela de Santa Tereza em 7 de fevereiro de 1927. O casal teve a filha Tereza Alice Rossel Marlinsky e quatro netos. Desde 1934 exerce o magistério municipal. Ocupa diversos cargos de chefia, sendo a 1ª Delegada Regional de Ensino de Bagé (1951), posto em que permanece até 1959.
Em 30 de março de 1953 Maria Martins Rossel, depois de idealizar, funda a Biblioteca Pública Infantil. E para alcançar essa nobre meta comanda diversas campanhas comunitárias como angariar recursos; distribuição de correspondências para conseguir doação de livros; ornamentação de vitrinas com o pedido de auxílios financeiros; conquista de duas bolsas para professoras estaduais se capacitarem em biblioteconomia; verba da Secretaria Estadual de Educação que possibilita o aluguel para implementar a obra; ampla divulgação pelas rádios e jornal local de campanha popular em apelo para recursos à Biblioteca.
Depois desta faina colhem-se os louros resultantes do trabalho e esforço da dedicada mestra; e, como dito, em 30 de março de 1953 é instalada a primeira Biblioteca Pública Infantil do Rio Grande do Sul e empossada sua primeira diretoria, composta por Antonio Cândido Franco (presidente), Maria Martins Rossel, Rosa Sefrin, Sarita Nunes, Paulo Costa, Ruth Cardoso Machado, Danúbio Villamil Gonçalves, Hermes Barreto, Darcy Barcellos, Paulo Passos, Reverendo Antônio Guedes, Ney Carneiro, Mário Cabral, Emir Sefrin e Telmo Candiota da Rosa.
A primeira iniciativa foi a de obter mais verbas através de um "Livro de Ouro", rifas e propagandas. Nessa fase a Biblioteca funcionava no prédio da 13ª Delegacia de Ensino na Rua Marechal Floriano nº 1276. Logo acontecem dois fatos relevantes: a aquisição de um projetor de cinema, obtida através do Instituto Nacional de Cinema; e o registro da entidade no Instituto Nacional do Livro em 26 de janeiro de 1955 (nº R.M. 5282).
Posteriormente outra etapa teve a "Bibliotequinha" com a gestão da professora e bibliotecária Leda do Amaral Freire quando a sede se transfere para a Rua Marechal Floriano nº 1099 esquina Bento Gonçalves, local de algumas dificuldades habita um porão, sendo salva pelos capuchinhos que a levam paras proximidades da Capela Nossa Senhora da Conceição. Ainda sob a administração de Leda Freire, finalmente, a Biblioteca atinge sua morada definitiva na Avenida Tupy Silveira nº 1.751, devido à construção de prédio junto à Escola Silveira Martins, em 1970, pelo destacado esforço de sua diretora e a eficiente construção da empresa Teorema de Waldir Alves Ramos.
Embora sociedade privada a Biblioteca entabula convênios com o Estado e o Município, passando a integrar o último ente em 1982. Através da Lei Municipal nº 4252, de 31 de maio de 2005, em ato subscrito pelo Prefeito Luiz Fernando Mainardi e pelo Secretário Antonio Kiwal Parera a Biblioteca Pública Infantil recebe a denominação de "Professora Maria Martins Rossel", justa homenagem à quem a imaginou e dirigiu.
Em sua concepção a Biblioteca abriga um Salão Literário Edy Lima, onde se encontram livros de literatura infantil, juvenil e adulta; jornais e revistas. E onde se tem orientação à pesquisa em obras escolares, enciclopédias e publicações diversas.
Também integra a estrutura a Escolinha de Arte "Tia Leda", que atende crianças de diversas idades durante dois turnos do dia. O teatro "Douglas Moraes", com espetáculos de teatro de bonecos destinados às escolas municipais estaduais e particulares. Ali trabalham a direção, professores de arte, bibliotecária e auxiliares, secretária, servente e rondas.
A Biblioteca Pública Infantil "Maria Martins Rossel honra o sonho de sua inspiradora, e engrandece a comunidade pelo desempenho dos servidores que a compõem, constituindo-se em atividade de exceção no ambiente gaúcho.
Fontes de consulta; " José Antonio Martins, um bajeense esquecido", de JCTG, jornal Minuano; Acervo documental de George Teixeira Giorgis; material da Secretaria Municipal de Cultura.

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