ANO: 25 | Nº: 6382
03/09/2019 Segurança

Júri condena acusado pela morte de Darlene

Foto: Rochele Barbosa/Especial JM

Sentenciado a 18 anos e 8 meses, réu utilizou o direito de permanecer calado
Sentenciado a 18 anos e 8 meses, réu utilizou o direito de permanecer calado

Rodrigo Fonseca Garcia foi condenado, nesta terça-feira, pelo tribunal do Júri, a 18 anos e 8 meses anos de prisão, em regime fechado, sem direito a recorrer em liberdade, pela morte (feminicídio) e ocultação de cadáver, com todas qualificadoras de motivo torpe, da sua então companheira Darlene da Silva Pires, ocorrido no dia 7 de abril de 2018, na região de Palmas, zona rural de Bagé.

A primeira testemunha a falar foi a delegada de Polícia Civil, Cárem Adriana do Nascimento, que foi quem realizou a investigação e o inquérito do feminicídio. Ela relatou que, no dia 9 de abril de 2018, o réu registrou uma ocorrência de desaparecimento da companheira; no dia 10 ele foi ouvido na 2ª Delegacia de Polícia Civil e contou que ela teria pego uma carona, em uma caminhonete vermelha, já em Palmas, para retornar a cidade, pois a motocicleta teria estragado e, então, ela teria desaparecido depois disso. No dia 11, o pai do réu cometeu suicídio. “Então fomos até a região de Palmas. Lá, eu e os agentes da Polícia Civil fomos até o local, onde estava o homem morto e, ao conversarmos com alguns familiares, tivemos a informação que ela teria desaparecido com o capacete preto, que ela teria voltado de carona levando o capacete. Mas então, ao verificarmos o galpão da casa, encontramos o referido objeto, com resquícios de sangue. Foi então que começamos a pensar que ele teria envolvimento com o desaparecimento da vítima”, relatou.

Ao ouvir as testemunhas, a delegada ainda reiterou que familiares do réu informaram que ela não teria ido para a casa dos pais dele, em Palmas, sendo que ele havia dito isso. “O momento de maior tristeza foi quando os filhos reconheceram o capacete que ela usava. Eles tinham esperança de encontrar a mãe viva. Isso tudo foi confrontado com Rodrigo, o fato do pai ter tirado a própria vida, por vergonha do que ele teria feito com a companheira, que a família dele tinha direito de velar e sepultar o pai, sendo que a família de Darlene não estava tendo o direito disso. Foi então que ele confessou”, destacou.

Cárem ainda falou, em juízo, que, na referida noite, após ele ter confessado o crime, os agentes foram até o local indicado pelo condenado. “Fomos com ele até o local onde ele enterrou o corpo da vítima. Ficava cerca de 80 quilômetros da cidade, na zona rural, e a uns 500 metros da estrada, numa região de matagal, de difícil acesso. Ele guiou e mostrou onde havia enterrado a vítima. Lá chegando, cavamos e encontramos o corpo dela, embaixo de uns pedaços de madeira podre, em uma cova rasa. Chamamos o Instituto Geral de Perícias e acompanhamos todo o procedimento, além de prendê-lo em flagrante, por ocultação de cadáver, o réu”, informou.

A promotora questionou a testemunha sobre como teria matado a vítima. “Ele contou, na confissão, que matou a vítima com o capacete, desferindo vários golpes, inclusive no rosto dela, na altura dos olhos e depois que ela caiu, ele ainda a asfixiou. O autor ainda disse que ela se debatia e tentou lutar pela vida, tentando defender-se e até arranhou ele”, destacou Cárem.

Sobre o que teria levado a cometer o crime, a delegada ainda disse que houve uma discussão, que eles brigaram e que ele tinha muito ciúmes dela. “Nos depoimentos das testemunhas, amigos e familiares, todos relataram que ele era controlador, que sempre ligava querendo saber onde ela estava, o que estaria fazendo. E ainda disseram que, em uma ocasião, ele disse que a mataria se ela o deixasse”, contou.

A autoridade ainda disse que, infelizmente, Darlene nunca havia registrado o abuso da relação na delegacia, e que a maioria das vítimas de feminicídio não registram. “O silêncio mata, infelizmente não sabíamos o que acontecia nesta relação, se ela sofria essa violência doméstica e familiar, além desse controle por ciúme”, relatou. A delegada também destacou que, em uma oportunidade, uma testemunha contou que ele, muito alterado e bêbado, teria mordido Darlene.

A defesa do réu questionou sobre uma possível traição da vítima e por que a delegada não tinha levado isso em consideração na investigação. “As testemunhas até fizeram referência a isto, mas o mais importante, em questão, é que ele tinha matado ela, por ciúme, um motivo torpe”, encerrou.

Foram ouvidos, ainda, três policiais civis que trabalhavam no caso. Todos reiteraram a versão da delegada. Um deles chegou a destacar que o comportamento do réu era muito calmo, frio, sério, de cabeça baixa quando questionado sobre o desaparecimento. Outra agente da investigação disse que desconfiou quando ele fez um gesto estranho com a mão e ainda comentou com os colegas que acreditava que ele teria cometido algo contra a vítima.

A acusação também chamou a ex-cunhada de Darlene, uma professora, que contou que não frequentava a casa, mas que quando soube do desaparecimento confrontou o réu. “Eu fui lá na casa dela para falar com ele, frente a frente. A Darlene era muito calma, tranquila, não era de contar sobre a vida do casal. Mas quando eu falei com ele, senti que algo estranho tinha ocorrido. Ele estava lá com os filhos dela, jantou e foi embora. Estava muito nervoso. Em uma ocasião, eu fiquei sabendo que ele teria tentado esganá-la”, declarou.

Defesa

Foram ouvidas, por outro lado, duas testemunhas arroladas pela defesa. O defensor público chamou a filha de Darlene, uma adolescente de 16 anos. Ela disse que o réu e a mãe tinham algumas brigas e que com ela e os outros três irmãos ele era muito quieto. “Várias vezes peguei minha mãe chorando, mas eu perguntava e ela não dizia. Não tinha amigas, não era de falar muito. Ele ligava sempre pra ela, toda hora, era ciumento, monitorava ela. Uma vez, numa roda de conversa, ele falou que iria matá-la”, contou.

O irmão da Darlene pediu para ser ouvido, mas sem a presença do réu. Chorando durante o tempo que estava testemunhando, ele mencionou que convivia pouco, não desconfiava dele, porque não via, e que o réu frequentemente tomava bebidas alcoólicas.

Interrogatório

Durante a leitura da denúncia, ao ser questionado, o réu manifestou o desejo de permanecer calado. No final da sentença, a mãe da vítima passou mal e teve que ser socorrida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). O tribunal do júri estava lotado, contando com a presença de integrantes da Coordenadoria da Mulher.

 

 

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