ANO: 25 | Nº: 6330

Dilce Helena Alves Aguzzi

dilcehelenapsicologa@gmail.com
Psicóloga
03/09/2019 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Setembro de conscientização ou hipocrisia?

Junto com setembro chega a campanha de conscientização e combate ao suicídio, setembro é amarelo pelo sinal de alerta em relação a algo tão terrível, tão extremo que, infelizmente, tem aumentado assustadoramente os índices mundiais de autoextermínio.

Para quem trabalha com saúde, especialmente saúde mental, o ano inteiro é dedicado à vida, seu cultivo e significado, mas este mês é especial por abordar a importância da ajuda adequada para quem está enxergando no suicídio a única solução para seu sofrimento.
Apesar do impacto inicial que o tema provoca, falar a respeito tem o objetivo de mostrar que pensar sobre morrer, e coisas mórbidas, está relacionado à fase obscura, triste ou deprimida que a pessoa está vivenciando.
Nesse panorama, a campanha oferece a ideia de recomeço, busca por ajuda, auxílio qualificado, amparo rumo a novas perspectivas de enfrentamento de uma das maiores dores que o ser humano pode experimentar na vida – a dor na alma. Nunca é demais ressaltar que dificilmente a pessoa deseja morrer, o que ocorre é a desesperança, descrença na solução dos problemas e o desejo imenso de parar de sofrer.
Outro dia vi uma postagem em rede social que confesso me chocou pela enorme dose, ao mesmo tempo, de honestidade e crueldade: "Bem-vindo a setembro, o mês da hipocrisia onde todos fingem que se importam com a saúde mental." Realmente poucas coisas me soam mais falsas e irritantes que o ativista de internet, o inconformado de rede social, este que luta pela Amazônia hoje, chora pelas tartarugas amanhã e segue sua via sem desviar um centímetro de sua zona de conforto. Parece que é bonito se importar, mesmo que seja frio no convívio diário. Parece cult ter uma bandeira para lutar, ser defensor de causas justas embora na vida prática seja reacionário, egoísta e julgue sem conhecer profundamente sobre quase nada.
Sendo assim vou aproveitar o desabafo sincero dessa pessoa, que deve ter sentido na pele o que é sofrimento psíquico, a despeito de toda mobilização na internet, e solicitar que o ativismo em prol da conscientização e combate ao suicídio vá além dos slogans, além do mês corrente e invada as nossas relações em tempo integral. Quanto dessa afirmação leva em conta as vivências em sociedade que não respeita os infortúnios emocionais, taxando-os com vários rótulos, como frescura e falta do que fazer? Aqueles que já sofreram a dureza dos comentários maldosos e preconceituosos, aqueles que já perderam trabalho por problemas emocionais e psíquicos sabem ao que se refere o desabafo que vi postado.
Sendo assim, que setembro deixe de ser um exercício de hipocrisia, sirva para que todos julguem menos, ouçam mais, perguntem mais às pessoas próximas como elas estão e fiquem para ouvir a resposta. Que todos possam ser corrente para as informações corretas de onde e a quem procurar em caso de dor emocional. Que todos saibam e ajudem a divulgar que há tratamento para os infortúnios psicológicos, existem profissionais especializados em saúde mental aptos a receber qualquer paciente. E, principalmente, que nenhuma dor é vergonha, nenhum sofrimento é bobagem.

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