ANO: 25 | Nº: 6335

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
05/09/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Sociedade dos passadores de panos mortos

A indiferença diante de uma agressão pode mostrar a antipatia narcísica pelo semelhante. Também pode ser uma amostra da absurda inversão de valores do mundo contemporâneo. Talvez um resíduo da covardia. Ou, ainda, a escória da apatia. Em todos os casos, a omissão com os diversos níveis de violência mostra como o silêncio de uns tem a capacidade de produzir um som ensurdecedor na alma das vítimas.

Para os defensores da indiferença, a preocupação com atos que ofendem não passa de um chilique dramático por parte do ofendido. Costumam afirmar que o mundo mudou e que não há problema algum em pequenos insultos. Sem perceberem, adotam a política criminosa do “não dá nada”, mesmo que não sejam os famosos delinquentes juvenis que tanto abundam no Brasil. Antipáticos, apáticos, covardes ou seja qual for o mix de características que erga a indolência a patamares nunca antes vistos, o fato é que a omissão é a responsável pela ascensão do idiota.

Por mais que Nelson Rodrigues esteja certo de que a democracia possibilitou que os idiotas tomassem conta do mundo por estarem em maior número, ele esqueceu-se que o idiota não seria sequer tolerado se não houvesse uma sociedade que os acobertasse: imbecilidades violentas que, muitas vezes, são verbalizadas ou expressas em redes sociais com a conivência dos “bons” cidadãos. Ou seja, a omissão é a oportunidade que outorga poder ao idiota.

O cientista político português João Pereira Coutinho, na coluna “Uma conspiração de estúpidos”, de 30/08/2019, publicada no jornal Gazeta do Povo, tratou de forma magistral essa peculiar condição do idiota. Ao mencionar o livro “The basic laws of human stupidity”, de Carlo M. Cipolla, Coutinho disse que “os seres humanos distribuem-se em quatro categorias fundamentais: os inaptos, os bandidos, os inteligentes e os estúpidos”. Enquanto as ações do primeiro lhe prejudicam e beneficiam os outros, o segundo só beneficia a si próprio e sempre prejudica os demais. Quanto ao sujeito dotado de inteligência, suas ações trazem benefícios para todos os indivíduos. Todavia, aquele que tem na estupidez a sua forma de vida é um ser hábil para gerar danos a terceiros e a si próprio.

Assim, o idiota é a representação de uma doença voraz que destrói o corpo social que habita. Odeia a inteligência, a sensatez, o equilíbrio, a razoabilidade, a educação e os bons valores que guiaram a formação de nossas adequadas relações interpessoais. Sabe que é inferior e por isso nutre ódio visceral pelo que lhe é superior.

O passador de pano, aquele que faz vistas grossas, finge que não vê ou minimiza os erros dos idiotas, não passa de uma barata que ficou tonta por receber uma dose de um inseticida, mas que agradece aos céus por não ter morrido de chineladas. O seu destino será o mesmo. Para evitar isso, bastaria não ser uma barata.

Se o passador de pano tolera danos para os outros e sua conivência gera enormes prejuízos sociais, não seria a aceitação da estupidez dos idiotas a grande idiotice desses estúpidos? Em redes sociais, já fui chamado de nazista, machista e afins. Não fiz nada. No fundo sou um grande passador de pano. Quase um lustrador de móveis deteriorados. Compactuo com a estupidez para que possa sobreviver, mesmo sabendo que essa sobrevivência significa a minha morte. Sou produto da época idiota em que vivo.

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