ANO: 25 | Nº: 6330

Viviane Becker

viviminuano@hotmail.com
Colunista social do Jornal Minuano, Viviane Becker é experiente jornalista de geral e conhecida editora do caderno de variedades Ellas.
06/09/2019 Caderno Ellas

Manual dos novos tempos 2, com menos paciência ainda

Foto: Reprodução JM

por Janine Pinto

 

Sempre fui otimista e aberta a mudanças. Queria ,realmente, que todas fossem para melhor, diga-se uma evolução. Mas parece que, muitas vezes, andamos para trás. Não consigo acompanhar tamanha velocidade e falta de utilidade de algumas coisas. Pensem um pouco, o nível de chatice atualmente é tanto ... pegaram uma mania de batizar coisas que sempre existiram com nomes novos, para conferir uma roupagem up to date, um certo ar de glamour e sofisticação que muitas vezes se torna irritante.

Costumo dizer que o mundo se 'gourmetizou'. Ccom esta 'gourmetização' surgiu um novo dialeto para especificar as coisas mais simples da vida como o ato de comer um delicioso bolinho de leite da padaria da esquina, pois não é que o dito bolinho agora ganhou um monte de cobertura melada, em cima diminuiu o tamanho, ressecou e triplicou o preço, foi rebatizado de  “cup cake”. Não caia que é cilada. É bonitinho de se olhar mas é ordinárioooo! E as novas frutas então. Dá para acreditar que, agora, tem fruta que só serve de enfeite? Ah, meu senhor. Convenhamos. Fruta no meu tempo era para comer, a gente ia na fruteira e comprava uma dúzia de bergamotas sentava no sol e comia. Atualmente, tem fruta para decoração, é o caso da physalis, aquela que parece uma laranjinha com uns galhos secos, é a nova mania, vem em cima de tudo, doce sem Physalis não existe! O que não tem physalis tem Nutella ou os dois juntos. O vivente não sabe se come, ou se arranca o negócio de cima do doce e bota de lado. É uma confusão dos diabos! Aí eu pergunto: tem coisa mais inútil que physalis? Com ph viu! Fica mais chique, se o seu bolo está acanhadinho só com recheio de “Mumu”, manda botar umas Physalis em cima, já da um ar de bolo fashion, engajado... Tem a pitaia também. Bonita como só ela, mas que até hoje me pergunto se é para  comer, se é para fazer decoração de festa, se é ingrediente de xampu, se é para por na sopa. Se alguém souber me avisa! E a couve de Bruxelas então. Sempre penso se a couve do japonês da esquina já está pela hora da morte, imagina couve de Bruxelas!   

Conforme o prometido, lá vai o novo jargão internetês: Sshippar. Sabe aquela senhora da família que todos, politicamente incorretos, chamavam de “velha alcoviteira”, no atual momento seria “tiazona shippadeira”. Quer dizer aquele que vive tentando lhe arrumar namorado, arranja uns encontros com o primo solteirão, aquele careca vesgo que ninguém quis, (só você tem que querer porque já está a perigo). Isso é shippar, é torcer de maneira veemente por um relacionamento, criar situações constrangedoras para ambos os lados, ficou claro não é mesmo, passemos para outro capítulo então, sem mais delongas.

Outra coisa que está na berlinda da inovação são algumas palavras entediantes repetidas até a exaustão por aqueles que julgam ter um discurso atual, aquelas que me dão fastio só de pensar como “empoderamento”. Cruzes! Essa para mim é a campeã. Mas têm outras que são igualmente horrorosas como a tal “gratidão", outrora era tudo tão lindo, se conjugava o verbo no tempo certo, usava-se "eu estou grata".  “Gratidão” é a palavra dos mesquinhos, ingratos, preguiçosos, que economizam até na maneira de falar. Grata ficarei em não ter que ouvir nunca mais esta palavrinha junto ao tal de empoderamento. A pior de todas é a 'Nano tecnologia'. Por acaso alguém pode me dizer o que significa?

E para você que nasceu há mais de 50 anos e não tem a mínima ideia do que é stalkear, conto já. Fazendo uma analogia com os velhos tempos é aquele que o leiteiro trazia o leite na porta em um tarro, "stalkear" é o antigo vizinho bisbilhoteiro, o que vivia te espiando pelo muro, pelas frestas da janela. Agora, o negócio mudou e a bisbilhotice, nas redes sociais, se chama “stalkear”. Mas continua o mesmo nível de indiscrição de antigamente viu? E já vou avisando que não adianta disfarçar porque na segunda stalkeada ao ex-namorado já aparece na página dele sugestão de amizade, fulana de tal (sua bisbilhoteira, cara de pau). Quando acontecer isso com você, é o seu Facebook rápido e inteligente que intuiu que você quer alguma coisa com esse vivente que lhe deletou. O Face que não sabe as diferenças de vocês vai lá e lhe sugere como amiga. Batata! O cara vai ficar com “esta bola toda”,  se achando a bolacha mais recheada do pacote. Portanto se segure e não stalkeia ninguém, pois os sinais da sua carência vão ficar bem claros!

Tem outro capítulo dedicado às doenças. Nada mais contemporâneo que ter virose,  essa é uma doença relativamente nova e “eclética”, pois serve para diversos sintomas. Antes, as doenças tinham nomes esquisitos como bursite, gota, lumbago, nó nas tripas, dor nas cadeiras, escarlatina, o sujeito que tinha tuberculose estava tísico, agora. só existe virose, tudo  absolutamente é virose, que falta de imaginação. Desconfio que quando o médico está em dúvida, taca um diagnóstico certeiro: "seu filho está com virose!" Depois, receita um antibiótico porreta, que quando realmente precisar não fará mais efeito. E pronto! A criança melhora em 48 horas. Por isso, minha senhora, não ligue para sua amiga em hipótese alguma dizendo que seu bebê está com infecção intestinal. Ela vai lhe chamar de mãe relapsa, que não levou o seu filho ao médico. Sim, porque se levasse, ele estaria com virose é claro!

Nove os fora vou seguir intuindo o que mudou para melhor, como sabonete com hidratante, tele-entrega, tecidos com elastano, telefone celular, embora, muita vezes, sem sinal, unhas de gel, a vida é breve. Continuarei fazendo piada deste cotidiano, que tantas vezes nos passa a perna!

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