ANO: 25 | Nº: 6385

Fernando Risch

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Escritor
06/09/2019 Fernando Risch (Opinião)

Morte em vida

Quando alguém morre, sentimos luto. Esse sentimento se agrava com o imprevisível. Ivan Illitch, personagem de Tólstoi, no livro que narra sua morte, fez sua família se enlutar antes de sua partida, quando moribundo em uma cama. Quando alma desgrudou de corpo, sentiram alívio. O luto sempre vem com a morte, mas não necessariamente com o ato de morrer. Há lutos que se antecipam, depreciando os que envolvem aquele que morrerá.

Há lutos, também, que se antecipam mais do que deveriam. Mortes sofridas com décadas de antecedência, pela ausência, pela dor, pela mágoa. Grilhões de afeto ou de sangue que prendem pessoas a pessoas e as fazem estarem eternamente ligadas, num pacto difícil de ser quebrado. O luto se estende, vai além do passo limítrofe de uma vida se esvair de um corpo e se perder à eternidade ou esquecimento.

Toda perda é difícil, seja ela em morte ou em vida. Na morte, com o fim definitivo, sem apelo, do destino final de cada um, sem últimas palavras, sem a possibilidade de dizer o indizível, entalado na garganta. Em vida, seja como Ivan Illitch, no amor dos parentes esperando por alívio, seja com o sentimento de repulsa pelo saudável, no enlutamento precoce, esperando que o laço que prende pé a pé um ser humano a um fantasma vivo se rompa, a trazer liberdade.

Passa-se uma vida de negação, em defesa de quem te faz mal, cria-se desculpas por comportamentos, pede-se desculpas por erros dos outros, até que um dia, numa catarse óbvia e até sincera, se descobre que não há merecimento para sustentar aquele comportamento, aquela enganação. O luto chega, uma morte em vida, e o fantasma a assombrar, vivo em carne, morto em alma, perambulando próximo às raias daqueles que só querem sentir o que todos que lidam com a morte pedem: alívio.

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