ANO: 25 | Nº: 6385

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
07/09/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

A fotografia de Bagé na Revolução de 1893

Em fins de março de 1893, partia, do Rio de Janeiro, o navio "Itaipu" com destino ao Rio Grande do Sul transportando o 11º batalhão de infantaria que vinha trazer o socorro militar ao do Estado em vista de conflagração recente. Viaja durante 52 horas num "mar em fúria" até aportar em Rio Grande, elogiada pelos zimbórios dos templos, o empório árabe, as soteias cobertas e altos prédios. Nele vinha o jovem José de Carvalho Lima que, aos 18 anos, cancelara a matrícula no Colégio Militar do Ceará para se incorporar à tropa.
Logo após breve parada seguiram para Pelotas, cidade que merece dele os melhores elogios: espécie de Éden ou cidade ideal, já conhecida como a "Fortaleza do Sul"; ruas bem calçadas e espaçosas; casas sem requintes arquitetônicos, mas de um aspecto alegre "em cujos frontais, não raro, o artista insculpe bizarros florões grandes", com "vistosos arabescos, quase emergentes de um fundo azul ou cor-de-rosa". O regimento foi ocupar um vasto armazém na rua Sete de Abril, com quatro enormes salões. O jovem louva o requintado Clube Comercial, a Biblioteca Pública, o hotel Aliança, a casa dos Maciéis, a praça 15, o sobrado do barão da Conceição, o jardim público, a cerveja Ritter etc. E o estabelecimento Sousa Soares "fabricante do popularíssimo Peitoral de Cambará e outras drogas destinadas a combater as moléstias do próximo". E sobre a mulher local a define como "alta, morena, esbelta, tez rosada, olhos pretos cintilantes, sobrecenhos negros, cílios longos, nariz proporcional, boca sensual, guardando dentes sãos e alvíssimos", eis "o perfil de uma dama pelotense tomado a esmo. Tipo simplesmente adorável".
Em princípios de maio o moço é surpreendido "dolorosamente" com a nova que deveria se aprestar para, em trem da Estrada de Ferro Rio Grande a Bagé, aprestar-se à nossa cidade depois de passar pela "pobre e despovoada estação de Piratini" e ante a notícia de breve assalto de Gumercindo Saraiva. Mais tarde Carvalho Lima retorna àquela cidade para proteger enorme cavalhada que ali chegava destinada ao general João Telles, comandante em chefe das forças legais sediadas em Bagé.
Conta ele que havia, em Piratini, um velho major da guarda nacional, legalista, fanfarrão e malvado, que, certa vez mandara "atar uma corda aos órgãos genitais de um pobre preto e passeá-lo, desta forma, pelos quatro pontos do lugar". Também em Piratini, um taverneiro gordo e bonachão, apelidado de "Treme-Terra"; e o "senhor Bento" dono de estabelecimento dividido em três setores: venda, hotel e curral de vacas leiteiras"!
Foi "com desalento" que receberam a ordem de marcha a Bagé para se integrar às forças expedicionárias, onde chega depois de longa e penosa viagem de comboio puxado por duas locomotivas e de haver sorvido, no meio da viagem, "a pequenos goles, fervente sopa de macarrão" da Estação de Cerro Chato. Chegaram, à tardinha, recebendo "a triste impressão do futuro" que o aguardava. Por trás da estação estava acampado o 13º batalhão de Infantaria, defrontando-se com cena parecida com a de retirantes nordestinos: soldados em quase nudez total, apenas coberta por um velho capote, descalços cabelos e barbas grandes; olhos de inveja aos recém-chegados; movimentos de absoluta falta de energia muscular, pedindo cigarro, ceroula camisa, uma peça de roupa qualquer. Dos soldados pouco se distinguiam os oficiais, apenas traziam os pés calçados em pequenos
tamancos feitos de couro de cavalo e sobre os ombros um poncho de pano e um chapéu de largas abas na cabeça.
"Um velho casarão, antigo quartel do 17º batalhão de infantaria, ermo de luz e cheio de imundices " fora designado como como quartel provisório, já enchendo o escritor de nostalgia pelo Nordeste. Segundo ele, Bagé, em confronto com Pelotas, "destoava em tudo, até nos costumes de seus habitantes, que, pelas relações contínuas com o Estado Oriental, deste recebem influência direta". Cidade ainda nova, dotada de limitada vida, "mais morta", se figurava, com suas ruas pouco habitadas por civis, encontrando-se mais "militar e militares andrajosos" como os vistos perto da Estação.
Aqui se estacionavam, além do 11º batalhão, também o 13º, 18º, 28º, 31º 12º de infantaria; 4º regimento de artilharia de campanha; 5º, 6º e 11º de cavalaria; um corpo de transportes, com 200 praças; e alguns "contingentes de patriotas".
"Era na praça da Matriz que se encontrava todo o movimento belicoso". Vizinho à igreja, "que servia a cidade com um magnífico relógio de repetição", estava o quartel-general, o seu estado maior, o "o vigário da freguesia" – um padre adepto da revolução e que por plano se fazia amigo do governo" e a residência do então coronel Carlos Maria da Silva Telles, comandante da praça.
No flanco esquerdo, numa velha casa, se aquartelava o 31º de infantaria e na esquina que dava para a rua 7 de Setembro, o 4º de artilharia. Ali, também, o depósito de pólvora e munições que, tempos depois, explodiu com a morte da guarnição de um canhão que preparava cartuchos de artilharia. Entre os mortos o sargento quartel-mestre, que casara, há poucos dias, e cujo corpo foi achado três quarteirões adiante, sendo reconhecido por sua aliança. As casas próximas tiveram as vidraças rompidas; do paiol, sólida e moderna construção, restaram apenas os alicerces. A explosão, que causou sérios prejuízos a Bagé, surpreendeu os soldados que correram para o local, achando um bacharel que fugia para casa e que ainda tinha um lado escanhoado e outro ainda ensaboado, com a toalha no pescoço e o chapéu na cabeça.
Bagé era "um dos pontos mais cobiçados pelos revolucionários", sendo assim bem guardada e fortificada, com sua praça de guerra "perfeitamente artilhada e protegida por metralhadoras e trincheiras, em todas as oito ruas" que na praça desembocavam. Um batalhão fazia toda a noite prontidão nas trincheiras, revezando-se as companhias em "rigorosa vigilância". Aliás, ali se dizia que em toda a cidade só não eram revolucionários os que vestiam a farda do governo. "Se o próprio vigário, amicíssimo do coronel Telles, nada mais era que um espião..., anota José Carvalho Lima.
E depois de longos dias de "abominável permanência em Bagé", o batalhão foi incluído na coluna sob o comando do general Mena Barreto para expedicionar, na fronteira, em busca do inimigo, já perseguido pela Divisão Norte que o tiroteara na passagem do Rio Jaguari Galgados os cerros das cercanias, num dia brumoso, a coluna guiada pelos 5º e 11º regimentos de Cavalaria, chega ao campo aberto e acampa depois.
O passo do Vila é transposto com água pela cintura. Difícil era a vida de um soldado, uma verdadeira "besta de bagagem", com um carregamento de aproximados 45 quilos, além do fardamento, capote, cobertor de lã e barraca, tudo molhado; duas bolsas com 200 cartuchos embalados, uma carabina Comblain, um cantil com água, um bornal com alimentos para quatro dias e o cinturão com o sabre. Após dois dias de marcha chegam ao Passo do Farinha, já com boatos da presença de Gumercindo Saraiva. Em vista da desordem da marcha, os federalistas avançam com a arma branca, matando os soldados a lançaços ou golpes de espada. Os regimentos de cavalaria se desfalcam, chegando um auxílio do 18º batalhão de infantaria. Gumercindo acampara na Serrilhada, no lado uruguaio, e atravessando a fronteira as tropas se enfrentam em sangrenta batalha, verdadeiro "batismo de sangue" de Carvalho Lima. Era o 23 de junho de 1893. Mena Barreto é ferido na perna. Numa tapera perto do lugar o cadáver de um soldado. Logo depois um cearense conhecido, filho de um militar, é achado. Ferido na omoplata por uma lança e com profundo golpe no crânio, estava degolado e castrado. Mais adiante outro degolado e despojado do armamento. Aprisionam um paisano que em péssimo castelhano procurava "Gumerciendo Sarabia" para lhe entregar umas montarias. Que são apreendidas, mas libertado o condutor. Depois de enterrados os mortos o exército retorna a Bagé, conduzindo ferido, numa carrocinha, o general Mena Barreto. Aqui chegando, os soldados leem, envergonhados, numa parede uma quadra que diz "O 11º de infantaria/Vindo da terra da luz/ Ao avistar o inimigo/ Corre como avestruz. "

Leitura: "Narrativas militares", de José Carvalho Lima, Edigal, 3e. 2014. A obra foi escrita em 1906, portanto 13 anos depois que o autor retornara ao Ceará, então já com 31 anos e jornalista. O vigário referido era o Cônego João Ignácio de Bittencourt, que aqui exerceu seu ministério de 1873 até sua morte, em 1906, de grande expressão comunitária e religiosa.

 

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