ANO: 25 | Nº: 6385

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
07/09/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Ninguém nasce...

Ninguém nasce civilizado, pois, como aprendi com Dom Gílio Felício, “a alma da civilização é a civilização da alma.”

Ninguém nasce racista, pois, como disse Mandela: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar.”

Ninguém nasce mulher, pois, como disse Simone de Beauvoir, “Ninguém nasce mulher! Torna-se mulher!”. Estendendo contexto e o raciocínio a contrário senso, é possível concluir, também, que ninguém nasce homem.

Ninguém nasce cristão, judeu, budista ou muçulmano, Nem Jesus, Abraão, Buda e Maomé, respectivamente. Neste particular, tudo indica que todos nascemos agnósticos.

Ninguém nasce vegetariano, sobretudo aqueles que nascem no Rio Grande do Sul, numa cultura e economia tão vinculada à produção e ao consumo de carne vermelha.

Ninguém nasce fascista, nazista, machista, golpista, ciclista etc, ainda que boa parte dos derrotados na última eleição assim prefira rotular o presidente da república e todos os seus simpatizantes.

Ninguém nasce colorado, ainda que o Bagre Fagundes tenha dito que faria um exame de DNA caso tivesse um filho gremista.

Enfim, como sentenciou genialmente Millôr Fernandes, “Todo homem nasce original e morre plágio.” É da dinâmica social! E graças ao nosso telencéfalo altamente desenvolvido e o nosso polegar opositor (como disse Jorge Furtado), evoluímos de presa a predador, com uma escala no Contrato Social de Rousseau e, assim, ocupamos o topo da cadeia alimentar.

E Darwin ainda explicou que “o vencedor não será o mais forte, será aquele que melhor se adaptar”, para enfatizar que a incrível capacidade humana de adaptação é que explica nossa sobrevivência e dominação como espécie animal e isso é decorrência da plasticidade do cérebro humano, ou seja, por ser moldável, flexível, nosso cérebro é capaz de absorver e processar incontáveis informações ao longo da vida e isso faz com que todas as frases acima sejam procedentes, mas, é óbvio, sem negar que heranças genéticas e influências biológicas também tenham influência na personalidade e capacidade de processar informações.

Se a gente perguntar para um filho se ele quer ou não ir para a escola, provavelmente a maioria dirá que não gostaria de ir à escola, mas, mesmo assim, os pais a levarão. Isso atende pelo nome de orientação e tem por finalidade desenvolver a capacidade de raciocínio e a aquisição das informações necessárias para crescer capaz de viver, conviver e sobreviver numa sociedade humana.

Da mesma forma a orientação dos pais influenciará a dieta da criança, seu time de futebol, sua religião, seus conceitos e preconceitos, valores e desvalores etc. Mais tarde, quando for para a escola, receberá influências de professores e colegas. Depois, os amigos, os ídolos da vida real e da ficção, os meios de comunicação, as lideranças políticas, enfim, uma infinidade de influências, vivências e experiências que formarão um ser único, inimitável. O irônico é concluir que um ser inimitável se constrói a partir de imitações.

Sem falar das transformações abruptas proporcionadas por experiências intensas ou em momentos especiais, capazes de dar uma guinada inesperada no nosso estilo de vida ou forma de ver o mundo. Quase tudo, então, está sujeito a estas influências. Esta é a beleza de ser humano, de poder ser aquilo que quiser, de poder mudar, se transformar, se converter, se libertar, se perdoar etc. Todavia, cuidado! Nem tudo pode, pois se alguém disser que ninguém nasce gay, corre o sério risco de ser equiparado a um racista pelo STF.




"Todo homem nasce original e morre plágio." Millôr Fernandes

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