ANO: 25 | Nº: 6360

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
14/09/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

O Hospital Militar na Revolução de 1893

Os soldados governistas não passaram momentos agradáveis durante a guerra de 1893. Quase nus, os restos de fardamento habitados por legião de muquiranas, cavalgavam com tamancos, alpercatas ou sapatos de pano, com solados de corda trançada. Depois do episódio da Serrilhada acharam-se cobertos "pelos louros da primeira derrota", segundo narra Carvalho de Lima, um deles.
Após o retorno a Bagé, a metade da tropa baixa ao hospital militar, instalado numa boa casa de família, mas péssima para receber os enfermos, cerca de 30 homens, exatamente o número de tarimbas (duros estrados de madeira dura) ali existentes, com seus travesseiros também de madeira e colchas de lã encarnada com barra preta, ocultando a falta de colchões de que as camas se ressentiam.
A direção do nosocômio estava confiada a um alferes auxiliado por um sargento que era também enfermeiro, um farmacêutico, dois soldados cozinheiros e oito serventes.
A farmácia, tida como boa, apenas continha medicamentos para as únicas moléstias a que estariam sujeitos os militares em tempo de campanha: o reumatismo, diarreia, dor de cabeça e constipações de toda a espécie. Para as outras a prescrição indicava um pouco de iodureto de potássio em água destilada, fórmula salvadora.
O prédio constava de farmácia, enfermaria e cozinha, peças com pouco asseio, justificado pela falta de vassouras, escarradeiras e urinóis. Os soldados se acomodavam no meio dessa imundice onde centenas de defensores das instituições republicanas curtiam seus infortúnios. O porão com piso de cimento foi a enfermaria que abrigava os doentes. Restou-lhes fazer o capote de cama e uma pedra de travesseiro. Das reclamações aparecem mais 100 tarimbas usadas e com fendas, por onde atravessavam percevejos e muquiranas. Esse ambiente recebeu o título de "Salão da Brisa" pela ausência quase absoluta de alimentos. A refeição, em geral, era café e pão, salvo quando o doente era premiado com a "dieta 1ª", ou seja, o direito a três caldos salpicados de arroz e temperados com açúcar, servidos três vezes ao dia, sopa que fazia "as barrigas roncar muito". A visita do médico era feita na penumbra, tanto que o profissional projetava um farol tubular na face do paciente. O enfermo, em contrações, queixava-se dos intestinos e apelava para a "dieta 7ª", somente obtida via pistolões e que dava direito a café, manteiga e pão de manhã e noite; e ao meio-dia, um bife de proporções microscópicas somado a outro pão. Apesar disso, eram poucos os que dali saiam para as "honras fúnebres", ou seja, transformados num sisudo cadáver, meio fardado, meio nu, de chapéu e tamancos!
Reinava, no local, um doente cearense, Elias Cintra Barbosa Lima, boêmio, amigo do farmacêutico, do médico, dos enfermeiros e do cozinheiro, que a todos conquistara. Tanto que, no primeiro dia, já recebia a "dieta 7ª" e um vidro de xarope "Seiva de Pinho", que se bebia com farinha às refeições. Alcunhado de "seu Bem" sua influência se espalhava por Bagé, tornando-se conhecido por suas peripécias. Tinha 30 anos e 14 de praça, franzino, louro, de olhos azulados, um sorriso constante nos lábios, simpático e insinuante. Era irmão do doutor Barbosa Lima, governador de Pernambuco, mas não evocava o parentesco. Muitas vezes mitigou a fome dos companheiros e até lhes forneceu roupas. Era amigo de um tal "Maneco", proprietário de "restaurante" no mercado, que dizia receber fregueses "distintos e afiançados", conseguindo que 12 soldados fossem incluídos como assinantes do estabelecimento. Possivelmente o fiador jamais quitou as despesas com o dono do lugar.
Em dias de muito frio, de guarda ou prontidão, Barbosa conseguia no mercado um litro de cachaça ou de "guaco", desconhecendo-se como ele introduzia o líquido no hospital. Quando interceptado, de garrafa em punho, mostrava o objeto e seu rótulo onde estava escrito "Farmácia Militar de Bagé. Para o soldado E.C. Barbosa Lima. Água fenicada a 4% - 1000 g. Para aplicação local. – doutor F.", o que permitia seu ingresso, para depois, com os demais, esvaziar o conteúdo. Na falta de dinheiro, planejou a seguinte estratégia. Nas cercanias havia um cavalo cansado e perto da estação um comerciante que comprava crina de animais a 800 réis o quilo. Então, o matungo era tosado de crina e cola e o produto negociando com dito comprador que teve de aumentar seus recursos para a constante venda!
Todos sofriam de frio quando de prontidão nas trincheiras da praça, mas Barbosa descobriu um modo de evitar tão penoso serviço. É que, desde os tempos monárquicos, época de carregar as espingardas pela boca, o soldado que tivesse de extrair algum dente devia pedir licença prévia e, praticada a operação, obtinha quatro dias de folga. Barbosa apartara dente seu, um canino perfeito que nunca o incomodara; e o usou algumas vezes para ser afastado do serviço, enquanto os demais "contavam as horas, encostados nos canhões que guarneciam a praça de guerra". Ordenassem a Barbosa abrir a boca, ele sacava outro dente que tinha conseguido no mercado de um "saca-muelas", que o tirara de algum popular. Tal dente circulou pelo grupo e beneficiou muitos companheiros.
Mais tarde, Barbosa Lima foi transferido para um batalhão em Rio Grande e ali deu baixa do exército, fixando residência e criando um jornal humorístico, o "Cri- cri". Voltou à luta, mas do lado contrário, agora como revolucionário e maragato, sendo morto e degolado no Caverá, quando lutava contra as forças a mando do coronel João Francisco.

Leitura: "Narrativas Militares", de José Carvalho Lima, 3e, Edigal, 2014.

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