ANO: 25 | Nº: 6354

Dilce Helena Alves Aguzzi

dilcehelenapsicologa@gmail.com
Psicóloga
17/09/2019 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

O real e afetivo no filme Legalidade

Sabe aquelas imagens afetivas que fazem parte da nossa memória sem as termos vivido? Fatos e seu entorno, impressões, contexto e sentimentos que estão ligados a um fato histórico que sequer éramos nascidos quando ocorreu e que, no entanto, estão lá guardados nas gavetas do afeto de tanto que ouvimos nossos pais e avós contarem?

Pois assim foi a experiência de assistir "Legalidade" um filme longa-metragem do diretor Zeca Brito que traz um pouco de ficção para incidir luz sobre um fato muitas vezes negligenciado em nossa história recente: a movimentação e protagonismo do então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, em prol da garantia de que o vice-presidente João Goulart assumisse o cargo após a renúncia do presidente eleito Jânio Quadros. À medida que a narrativa evolui surgem motivações, posições firmes e o perfil bem traçado do líder que não titubeava ante as amarguras e oposições tão inabalável era sua crença em valores sólidos pelos quais considerava plausível lutar abertamente.
Imagens reais e releituras de fatos que habitam nosso imaginário vão surgindo na tela e se misturando àquelas histórias que ouvimos nossos pais, tios e avós contarem muitas vezes. Poético em cenas de um povo disposto a desobedecer criativamente, entoando, murmurando ou assoviando um hino que expressava aquilo que uma coletividade estava desejando.
Fala de um momento de liderança forte, com cara, perfil e jeito de falar perfeitamente identificados com nossa forma de ser, com ideais e valores compatíveis com aqueles com os quais fomos educados.
Legalidade mostra alguns detalhes que eu não conhecia - discursos, manobras, formas de resistir, estratégias de enfrentamento de crise e tomadas de decisões levando-se em conta o contexto histórico. Além disso, propõe questionamentos interessantes e oportunos, muitas vezes colocando em ponto de igualdade discursos que nasceram em campos nitidamente opostos.
É na voz de um personagem feminino e real que se ouve talvez a reflexão mais interessante a respeito do que narra o filme, Neusa Brizola afirma não saber se é por idealismo ou vaidade que o marido assume tais posicionamentos.
É necessário assistir Legalidade, se deixar invadir pela atmosfera e trazer a tona algumas reflexões e seus desdobramentos. De que valeu? Por que fizemos tudo o que fizemos? Como estaríamos hoje se as decisões fossem outras... Afinal, já fomos mais corajosos, tínhamos ideais mais definidos, maior ânimo para lutar pelo justo e correto ou simplesmente éramos mais ingênuos? De qualquer forma, Legalidade faz pensar e por isso já faz toda diferença. A reflexão final de um Brizola amadurecido pelo tempo e pelas frustrações é, em minha percepção, o ponto alto e grande momento emocional do filme. Saí domingo do cinema saudosa de minhas conversas com meu avô.



Um momento de liderança forte,
com cara, perfil e jeito

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