ANO: 26 | Nº: 6589

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
20/09/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Os bonequinho da Praça do Coreto

Ora direis: vai lascar um artigo favorável à campanha do agasalho do menor abandonado ou da velhice transviada. Ou protestar contra a nudez das árvores, agora, que está na época de fazerem o seu 'estripetise' anual?

Aí está uma das coisas boas dos títulos, leitor. Você já veio até aqui, sempre na interrogação, no que será, que quer este cara. Enquanto isto o carro desta máquina emprestada continua a deslizar e eu vou seguindo, apenas para dizer-lhe que você se enganou.
Não vou aderir ao agasalho. Essas campanhas tendem muito para o "dar" e sou um defensor do "distribuir", mais social, mais justo. Dar é esmola: fere e ofende quem recebe. Supõe retrato e nome no jornal. Supõe propaganda e publicidade do gesto de larga benignidade.
O distribuir é equitativo, é obscuro e profundamente justo. É como dizia o outro, em tom conferencial: "Meus irmãos, precisamos de mais justiça e menos caridade"...
Dito isso, feito esse preâmbulo, pois eu não sabia como começar a crônica e o linotipista recém chegou ainda com os músculos frios, precisando de um exercício, resolvo entrar no assunto. Pois bem, leitor, depois dessa filosofia acaciana, vou falar sobre os bonequinhos da Praça do Coreto.
Desde o tempo em que, mesmo sem saber do "conhece-te" do Sócrates, comecei a ver que eu era diferente dos cachorros e das árvores, já era costume se ir brincar na Praça.
Me lembro bem: se botava a roupa melhor, possivelmente um boné de marinheiro, pois era moda.
As famílias ficavam nos bancos vendo desfilar defronte do Mercado, cujo relógio que hoje ninguém sabe onde anda, dormia pachorrento. A criançada se esbaldava, corria na grama então bacana, subia no Coreto. Era também frequente se fazer xixi no Obelisco, reverenciando a independência em santa ingenuidade. As mães gritavam: aí não! mas qual a criançada não tinha malícia e vá batismo. Pois, meus conterrâneos, desde esse tempo, já se iam olhar os peixinhos nos chafarizes. Eram limpos, saía água pelos gurizinhos de pedra. Você se lembra?
Depois, muitas horas marcou o relógio. A bandinha desapareceu por tempos, as famílias não foram mais à Praça, muita gentinha e milicada, se dizia. A piazada espichou e aprendeu nos livros que não se deve fazer aquilo no Obelisco (mas já vi muito grandote recordar velhas épocas, reverenciar a infância, em saída de baile ou com alta dosagem alcoólica na hemoglobina). Mas os bonequinhos do chafariz ficaram. Se bem que passa administração e eles se sujassem, perdessem a cor e em lodo virasse o viveiro dos peixinhos eternos, pois nos parecem sempre os mesmos: aquele vermelho, o menorzinho preto, um açougue, continua gostando de migalhas de pão.
Não sei se foram as festas do "sesqui". Mas resolveram pintar os anjinhos. Se de um lado a iniciativa foi o que melhor se fez, por outro lado se cometeu uma grande, uma tremenda injustiça social, que deve ser discutida na Câmara entre um tiro e outro. Senão vejamos:
O bonequinho do lado da Prefeitura, não sei se para dar inveja na sujeira dos anões da Branca de Neve, está rosado, corado, vermelhinho, vitaminizado, brincando feliz com o seu ganso, cisne ou afim. Está no sétimo céu, no céu dos animais e das estátuas de que nos fala Gimenez.
Mas, oh, diferença de sorte: você já reparou no chafariz de cá, leitor?
Aquele é o primo pobre, ou nova versão do príncipe e mendigo. Deram ao inocente a cor de dor de barriga. Amarelado, pardacento, mais parece pedir Biotônico Fontoura. É um jeca.
Isto não é nada. O olhar, leitor, isto sim dói na alma. Olhe o olhar. É um olhar de inveja, de mágoa, de tristeza ante a robustez e a alegria do boneco do lado de lá.
Oh! Senhor! Encarregado das tintas municipais: se admite a inveja entre nós bípedes. É até desculpável e as vezes fonte de luta e vitória. Mas que queiramos recalcar essas crianças de pedra é demais. É um crime de lesa sesquicentenário.
Vamos injetar vida no boneco do lado de cá. Chamem-se médicos pediatras. Convoquem-se pintores. Nossos químicos dosem tintas, carreguem nas sanguíneas. Nossos juristas pronunciem catilinárias sobre as diversidades sociais. Mas alegremos o injustiçado.
Porque se não nos podemos conservar, como o Mercado, o relógio ou a grama, ao menos façamos tudo para persistir no coração das pedras que nos viram brincar.

P.S. Certamente os leitores estranharam este texto que fala de "máquina de escrever", "linotipos", "sesquicentenário"e outras velhices. Pois é um artigo de 1961, quando o aquário dos peixinhos perto do Coreto estava abandonado, os peixinhos morrendo afogados....É o testemunho de época. Agora,me confundi: os bonequinhos existem? E os peixinhos?

 

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