ANO: 25 | Nº: 6382

Fernando Risch

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Escritor
20/09/2019 Fernando Risch (Opinião)

Ritual

Você acordou agora, pegou o jornal e leu isso aqui. Tem outras coisas para ler, outros jornais para ler, mas você lê isso aqui. Nas capas dos nacionais, existem coisas que não merecem ser lidas ou não dão o prazer da leitura. Você esmorece frente àquilo. Faz parte. Mas hoje, não. Hoje, você pegou este e dedicou seus olhos, cérebro e talvez um pouco da fala nestas linhas.

São linhas suaves, não pretendem irritar ninguém, como geralmente fazem. Pare agora, leitor. Abra a janela e respire o ar. Veja se o céu está azul. Está, não está? Se você sair à rua, sentirá cheiro de esterco, faz parte deste dia. Mas ignore o cheiro ou utilize-lo para assimilar coisas boas, a momentos agradáveis, a uma época específica do ano em que todos possam pelo menos parecerem felizes.

Vá à geladeira e beba um copo d'água, uns 500 ml, me falaram que faz bem. Tome um café, se preferir um café, ou um mate, se preferir um mate. Descongele a costela na pia enquanto faz isso. Vista roupas específicas, se assim lhe agradar. Use carvão, se carvão lhe apetece, ou lenha, se lenha lhe for mais conveniente. Faça do pão de alho seu anfitrião, para repunar o paladar de início. Uma linguiça vai bem. Desta vez, opte sempre pela de porco. Pimenta aos picantes, sem pimenta aos suaves.

Destampe a primeira embaixo do sol, para que ele abençoe a sagrada, loura ou âmbar. Ouça o barulho com atenção, da tampa ou anel. Sirva ao copo, ainda ouvindo. Não perca o foco. Deixe a brisa correr por uma janela, respire fundo e beba o primeiro gole, se assim saciar sua vontade. O primeiro sempre é o mais especial. Deixe a labareda crepitar até que o que um dia foi vivo se carbonize em pedra rubra.

Lance metal em músculo. Sinta o calor que emana. Jogue ao fogo o que é do fogo e à garganta ao que é da garganta. Beba o segundo gole, esse já embargado de ambiguidade. Ignore o sentimento ruim, ele só quer desmoralizar o ritual. Opte pelo positivo. Use o sol, se assim precisar. Use o vento, caso ele corra. Abra outra, se é isso que deseja. Mas não deixe que nada impeça o processo sacrossanto de prosseguir.

Não esqueça o sal, seja antes ou depois. E cuidado com o sal, não vá passar do ponto. Chame a chaira, deixe que cante o canto de aço com aço. Corte com precisão, não erre o dedo, mas espere que ela descanse um pouco antes de fazer. Não há pressa. Aprecie com cautela, não se afobe. Repita o processo. Todo, desde o início, até seu fim. Infelizmente, todo ritual tem seu fim. Mas não deixe que isso te abata. Ele existe para ser repetido.

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