ANO: 25 | Nº: 6361

Rochele Barbosa

rochelebarbosa@gmail.com
Jornalista formada pela Universidade da Região da Campanha. Responsável pela produção e reportagem do caderno de Saúde do Jornal MINUANO
23/09/2019 Caderno Minuano Saúde

Dia de Luta da Pessoa com Deficiência

Foto: Augustho Soares/Especial JM

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Bajeenses avaliam a inclusão social na Rainha da Fronteira

Por Augustho Soares

Acadêmico de Jornalismo da Urcamp

 

Uma data criada com o objetivo de conscientizar os brasileiros sobre a importância do desenvolvimento dos meios de inclusão na sociedade, o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência foi celebrado no sábado , 21 de setembro.

Idealizada por um grupo denominado Movimento pelos Direitos das Pessoas Deficientes (MDPD), esta data foi criada oficialmente a partir do decreto de lei nº 11.133, de 2005, mas já era celebrada de forma extraoficial desde 1982. O dia foi escolhido por marcar o início da primavera, fenômeno que pode ser metaforicamente comparado ao renascimento e renovação da vida, assim como acontecem com as flores durante esta estação.

Nesta edição iremos conhecer o trabalho realizado em Bagé.

 

Uma nova forma de olhar

 

Para a bajeense Rita Ester Lopes Mouchet, 59 anos, a ideia de renascimento se aplica bem à história de sua vida. Funcionária da Urcamp desde 1984, Rita conta que após entrar em férias, em fevereiro de 2017, começou a sentir dores nas veias de sua perna esquerda e precisou ser levada às pressas para Pelotas, onde teve o membro amputado. “Os médicos alegam que foi por causa do cigarro, mas até hoje não sei o que aconteceu”, afirma. “Eu lembro que escutei o médico dizer que se atrasasse mais dez minutos, eu tinha morrido”, desabafa.

Além do apoio da reitora Lia Herzer Quintana e de autoridades da instituição de ensino superior, desde a viagem para a operação até o seu tratamento, Rita também salienta o auxílio que a Urcamp lhe deu para a reinserção no ambiente de trabalho. “Eu trabalhava na secretaria do curso de Direito e eles até adaptaram um guichê mais baixo para mim. Mas como os médicos pediram que eu fizesse apenas seis horas (de trabalho), então me realocaram para a Central do Aluno”, relembra.

Quanto à adaptação à cadeira de rodas e à prótese – que utiliza em sua casa – a bajeense afirma não ter sido difícil, já que tem ajuda do curso de Fisioterapia da Urcamp e do Centro Especializado em Fisioterapia da Prefeitura de Bagé. Porém, ressalta que a maior dificuldade que enfrenta na Rainha da Fronteira é referente à acessibilidade. “Na Urcamp eu consigo me mover, mas na rua eu só consigo andar de cadeira de rodas, e mesmo assim eu não consigo andar sozinha, porque as rodas trancam nos buracos das calçadas”, pondera. “É complicado não poder fazer coisas simples que eu fazia. Isso não me ‘tirou fora do prumo’, mas me deixa chateada”, confessa.

A acessibilidade também é uma dificuldade para Elisabeth Colman Dinegri (Beta), 68 anos, e Paulo Augusto Moreira, 50 anos, que são, respectivamente, presidente e tesoureiro da Associação dos Deficientes Visuais do Município de Bagé.

Beta conta que antes mesmo de perder sua visão, em 2004, por causa da diabetes, já trabalhava, junto à entidade, como professora para pessoas com deficiência visual. Sendo assim, na mesma hora que soube de seu diagnóstico, buscou se adequar à nova forma de viver. “Eu sempre encorajava meus alunos e dizia que a gente pode fazer tudo, então acabou que eu não tive aquele tempo de luto, porque eu tinha que provar isso”, relata.

Já Paulo explica que perdeu sua visão em março de 1996, após ter uma infecção no nervo óptico, enquanto dormia. “Desde então, eu vivia uma vida parada, mas quando conheci o pessoal da associação, vi que poderia mudar isso. Hoje, eu não sei dizer o que é enxergar ou não enxergar, porque a minha vida virou uma vida normal”, declara.

Porém, o tesoureiro da entidade também enfatiza que a falta de acessibilidade em Bagé dificulta suas tarefas diárias fora de casa, sendo que o ideal seria que as calçadas da cidade tivessem piso tátil. “Até tem uma legislação para que nas novas obras tenham isso, mas algumas vezes a pessoa que coloca a calçada não tem a sensibilidade para isso, porque o ideal seria a gente colocar a bengala e seguir na mesma linha até o final”, informa Paulo, que complementa: “Enquanto isso não acontece, a gente se acha porque vai mapeando os lugares com a bengala”.

Por outro lado, o bajeense destaca que o transporte público teve um avanço, sendo que as empresas têm treinado seus funcionários para agir de acordo com as especificidades das pessoas. Além disso, Beta salienta que nos últimos anos houve uma evolução quanto à inclusão dos deficientes na sociedade bajeense. “A gente sai para a rua e as pessoas já não nos olham como se fosse uma coisa rara, elas aprenderam a como nos ajudar”, explica.

 

Associação dos Deficientes Visuais

Criada em 1990, a Associação dos Deficientes Visuais de Bagé atende, hoje, cerca de 20 pessoas, com aulas de artesanato, braille e coral. A instituição se mantém somente com a venda dos artesanatos, confeccionados pelos atendidos. A sede da entidade funciona junto à Casa de Cursos, na rua Santo Antonio, nº 139, bairro Getúlio Vargas. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (53) 99927.9455.

 

O que tem sido feito

Mãe de um jovem com paralisia cerebral, Cimone Barbosa Gonzales é presidente da Associação Bajeense de Pessoas com Deficiência (Abadef) e do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Compede), além de coordenar as políticas públicas sobre a temática para a Prefeitura de Bagé.

Através de suas experiências pessoais e à frente destes cargos, ela também salienta a carência de acessibilidade em Bagé, e pondera que esta é a mesma realidade dos demais municípios gaúchos.

Ao ser questionada sobre as ações municipais em relação ao problema, Cimone destaca a desobstrução das calçadas do centro da cidade como um bom começo para Bagé. “Quando um vendedor ou o próprio comércio coloca uma prateleira fora de sua loja, ele está fazendo com que a acessibilidade diminua, e hoje há uma preocupação do Governo em relação a isso”, afirma.

Além disso, ela salienta que a gestão municipal tem ouvido suas demandas e se manifestado como parceira para futuros projetos. “Nós estamos conseguindo ter um diálogo, que já está rendendo alguns frutos. No bairro Dois Irmãos, por exemplo, além de ter sido feito um projeto para que a calçada ficasse o mais plana possível, também já foi colocado piso tátil na obra”, comenta a ativista da causa, que também está trabalhando para que esse nível de acessibilidade possa ser implantado no centro da cidade.

Por fim, quanto à inclusão, Cimone acredita que, através de atividades realizadas pela Abadef e outros órgãos envolvidos na causa, nos últimos anos, houve uma aproximação das pessoas com deficiência e de suas famílias com o restante da comunidade local. “Havia um conceito de que a única forma de ajudar essas pessoas seria doando para as associações assistenciais, como a Apae e o Caminho da Luz, que fazem um trabalho maravilhoso e muito relevante. Mas isso é apenas uma das necessidades, porque além de ter a reabilitação, a pessoa com deficiência também precisa estar na sociedade”, ressalta.

 

Estatísticas em Bagé

Em Bagé, segundo informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 25 mil pessoas declararam alguma deficiência no Censo de 2010, o que representa aproximadamente 20% da população atual. No entanto, vale lembrar que pequenas deficiências visuais e auditivas foram incluídas nessa contagem. Em relação ao Brasil, em 2015, um levantamento feito pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde revelou que 6,2% da população brasileira tem algum tipo de deficiência.

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