ANO: 26 | Nº: 6542

Luiz Fernando Mainardi

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Deputado Estadual
25/09/2019 Luiz Fernando Mainardi (Opinião)

Banrisul novamente em risco

Semana passada, o governo de Eduardo Leite sofreu uma de suas piores derrotas nestes nove meses de governo. Após insistir em um negócio criticado por muitos, inclusive por este que aqui escreve, foi verdadeiramente patrolado pelo mercado e precisou recuar da venda de ações do Banrisul, que ele sinalizava ser a saída para um dos problemas mais emergenciais do estado, a retomada do pagamento em dia dos servidores públicos.
O evento, recuperou, também, o debate sobre a privatização ou não do banco público. Como diz o ditado gaúcho, "quem desdenha quer comprar". Foi isso que fizeram os agentes privados que, ao ofertar valores menores do que esperado pelas ações, sinalizaram que só se interessavam pelo controle total do banco.
Assustado com o futuro e sem saber direito o que fazer, Leite utilizou a sinalização do "mercado" (leia-se banqueiros privados) para relativizar sua promessa de campanha em relação à manutenção do caráter público do banco. Disse o governador que se a Assembleia Legislativa quisesse, ele estava disposto a rediscutir sua decisão anterior de não privatizar o Banrisul. Como assim?
O que se espera de um governador é que ele diga o que propõe para o Estado e não o contrário. Não vivemos um regime parlamentarista e Leite sabe disso. Então, fica evidente que sua afirmação tem apenas a pretensão de "levantar a bola" para que algum representante dos interesses do mercado sugira isso no âmbito do parlamento. Os sinais todos indicam, portanto, uma reviravolta na conjuntura em relação ao banco público. E isso exigirá que novamente nos mobilizemos para defender o patrimônio público, agora, o mais importante e valorizado.
Todos os indicadores econômicos e financeiros demonstram que a manutenção do Banrisul público é o melhor caminho para o estado. Os números também indicam que a política que iniciou lá no governo Yeda, de vender aos poucos, de forma pulverizada, ações preferenciais e ordinárias do banco não é um bom negócio. Segundo análise da empresa Zenith, essas vendas acabam por alcançar um valor muito menor do que a média das negociações do setor bancário. Enquanto a média nacional nesses negócios é alcançar 2,2 vezes o patrimônio, os negócios do estado, até aqui, ficaram em uma média de 1,2 vezes.
A operação levada a cabo por Leite foi ainda pior, já que ficou evidente para o mercado a necessidade do dinheiro para o governo resolver problemas de curto prazo. Este, aliás, é outro problema desta política. A venda de ativos que geram lucros e dividendos para o Estado para pagar compromissos conjunturais é uma política ineficiente e burra, porque ao invés de vender os ovos de ouro, opta por vender a galinha. Uma típica opção de curto prazo que compromete ganhos de médio e longo prazo. Uma clara política de quem não possui uma estratégia definida de desenvolvimento, como aliás, já dissemos e repetimos.
Aliás, como também já dissemos, a agenda de privatização do banco público desconsidera o papel fundamental que o Banrisul ocupa no fomento às atividades produtivas típicas de nosso estado, que, como se sabe, não são nem conhecidas nem estão no DNA dos bancos privados.
Não é indiferente aos gaúchos ter um banco que conheça a nossa cultura, que conheça as nossas práticas econômicas, que entenda nosso comportamento financeiro. O fato de o Banrisul ser daqui e se reconhecer como daqui é um ativo impagável e, em minha opinião, inegociável.
Nos últimos 20 anos, o Banrisul gerou ao Estado algo em torno de R$ 16 bilhões, considerando dividendos, lançamento de ações e compra da folha de pagamentos. Se a negociação de Leite tivesse sido bem sucedida, teríamos perdido pelo menos 25% disso nos próximos anos. Da mesma forma, desde que iniciou as vendas pulverizadas de ações, o Estado já arrecadou R$ 586 milhões. Para isso, abriu mão de R$ 207,5 milhões em proventos e valorização das ações. Definitivamente, não é um caminho que interesse aos gaúchos.
O que interessa aos gaúchos é manter o Banrisul público e pagar em dia os servidores. Não há contradição entre essas duas necessidades. Inclusive porque Leite já disse que o parcelamento dos servidores era um problema de fluxo de caixa e não de falta de dinheiro.

Líder da bancada do PT na AL

 

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