ANO: 26 | Nº: 6527
25/09/2019 Luiz Coronel (Opinião)

Legalidade, o filme


Bailarino é cisne ou pato. Ator ou atriz definem seus papéis em três minutos ou arrastam seus papéis pelos compartimentos da trama. Falo de "Legalidade," filme de Zeca Brito.Ele recebe palmas no seu "The End". E isso é mais raro do que deparar-se comum santo em lupanar. Tirando o chapéu para a mão segura da direção, unindo com mágica destreza o documental às filmagens recentes, faço elogio às interpretações de Cleo Pires e Leonardo Machado. Dele e nele o talento interpretativo vivendo um Brizola absoluto. Eu o tive em meu convívio nas filmagens dos "curtas gaúchos", quando interpretou Filé de Borboleta, meu risório personagem. Mas, tomemos Cleo Pires pela mão. Ela confere esplendor ao ficcional. O salto de seus sapatos subindo os degraus do Palácio Piratini já definem, de antemão, seu papel arrebatador. Existem atores que priorizam voz, tenhamos como exemplo Richard Burton. Ou, sinistros silêncios, qual Bette Davis. Cleo Pires é a atriz do olhar. Uma mirada sensual que estende lençóis, anuncia a paixão fugidia, confere sombras e luzes ao seu mistério. Como bajeense dos quatro costados, exultei com o filme. Posso dizer que estive no olho do furacão. Morador da Casa do Estudante, na Riachuelo, 155 (a150 metros do burburinho)Legalidade invade minhas memórias, realiza a ressurreição de um tempo inquietante. Saio do cinema convicto: saltam fumaças brancas na chaminé, "habemos" um jovem cineasta de mão cheia entre nós.E não me venham com julgamentos de foro ideológico. Uma obra de arte será ou não será bela, e o resto é balela. Deixe suas preferências partidárias na coleira,entregue-se de corpo e alma a um momento heroico de nossa história, tão marcada pela safada acomodação.Estamos nos anos 1960, tempos revolucionários. As ideologias ainda não tinham sido atropeladas pela era digital. "Legalidade" encara um ciclo peculiar de nossa memória republicana, e o faz com soberana dignidade. E permito-me, empoleirado em meu já longo viver, abraçar o Sapiran, um exímio Brizola no exílio e alertar sobre a responsabilidade do Zeca Brito e da Cleo Pires de levarem com honra e bravura o peso imenso de seus talentos, dádiva rara dos deuses, que bem sabem cobrar as benesses que conferem. E, ante a lembrança de Leonardo Machado, reconhecer que, se breve foi o tempo que lhe foi concedido, nem por isso apagou o afável e cintilante brilho de seu talento. Que "1964" complete esta narrativa imprescindível ao olhar hodierno, tão perdido em frívolas peraltices televisivas.

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