ANO: 25 | Nº: 6485

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
26/09/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Homem primata

O que é alta cultura? Talvez seja muito simples definir o que não é. De certa maneira, é quase instintivo. A mera impressão pessoal, a simples audição, a curiosa visualização ou a passageira reflexão já ofertam bons indícios para separar aquilo que eleva o espírito humano daquilo que o degrada. Mas é óbvio que essas afirmações só fazem sentido se o intelecto não foi invadido pelo relativismo-progressista ainda predominante.

Assim, é óbvio dizer que a definição de alta cultura pode ser obtida pela verificação dos valores que envolvem os produtos culturais. Em cada microcosmo cultural, sempre há uma essência, sentido ou significado social, que pode ser mensurado pela escala dos bons valores compartilhados em sociedade. E é esse o ponto que faculta a elaboração de julgamentos morais, que permitem a crítica sobre determinadas práticas culturais, as quais não se coadunam com adequados processos civilizatórios. Mais uma vez, relativistas afogados pela crença na ausência de verdade e progressistas dominados por ideologias que negam evidências, não estão aptos a navegar por águas tão profundas e caudalosas.

Em anexo, existem algumas dificuldades adicionais, que tornam a busca pela definição de alta cultura algo mais enfadonho. A própria ideia de democracia cria obstáculos nessa tarefa. Ao nivelar todos os indivíduos pela regra da igualdade, desenvolve-se a perspectiva de que todas as ideias têm o mesmo valor no debate público. Ao transpor para a cultura, se tudo apresenta o mesmo valor, como criticar uma produção artística sem ser classificado como preconceituoso?

Derivado disso, está a aversão contemporânea a tudo aquilo que soa melhor ou que faz parte de uma elite, uma herança irracional igualitarista. Ora, se alguém advoga pela alta cultura, por tabela, está defendendo diferenciações sociais, que não são bem vistas pelas “elites intelectuais”, que querem planificar a sociedade e que nada mais fazem do que reforçar chavões e apelos sentimentais para agradar às agendas políticas que defendem a destruição dos valores tradicionais.

Como se a tristeza fosse pouca, é possível mencionar o processo de emburrecimento estratégico desenvolvido pelos “especialistas”, que transformaram a ignorância em algo cult. Sobram exemplos de ações culturais desprezíveis, infames, vis e abjetas que são as consequências diretas de anos e anos de severas lavagens cerebrais, orquestradas para implodir os pilares civilizatórios.

Sem acesso a bens culturais dignos da palavra cultura, gerações inteiras submeteram-se a experimentos sociais criados pelas “elites intelectuais”, que lhes reduziram a condição humana. Ao privar os indivíduos de traços culturais valiosos, vendendo-lhes a promessa de que qualquer arte serve para o florescimento humano, convertemos para primata os seres que poderiam ser a imagem e semelhança de Deus.

E qual é a importância da alta cultura? Para além de pequenos caprichos que garantem prazeres eternos ao intelecto, ela possibilita transcender a realidade cotidiana, dotando de sentido nossa existência. Sem a alta cultura, não passamos de pulgas existencialistas, imaginando que o mundo se resume ao cachorro que parasitamos. Ela é importante, pois é o único canal que possibilita romper com os grilhões da miséria moral e contemplar resquícios perfeitos na imperfeição.

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