ANO: 25 | Nº: 6382

Fernando Risch

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Escritor
27/09/2019 Fernando Risch (Opinião)

Discursos e discursos


Eu não preciso dizer o que penso do discurso de Jair Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral da ONU, quando este vem empapado de conspiracionismo, negacionismo e ataques sem nenhuma necessidade, como ao cacique Raoni, a maior autoridade indígena do Brasil, respeitado no mundo todo, mas há de se entender a mensagem e para quem ela foi direcionada. Aqui, há duas análises: interna e externa.

Primeiro a externa, a que se espera de quem vai até a ONU falar a outros líderes mundiais. Essa, trágica. Agressivo, ofensivo, Bolsonaro perdeu a oportunidade de ser um líder conciliador, de aparar arestas e trazer confiança da comunidade internacional ao Brasil. Isso não quer dizer ser submisso, se curvar aos interesses externos. Não. Pode-se ser conciliador e ao mesmo tempo ser forte na mensagem sobre a soberania nacional. E Bolsonaro fez bem quando defendeu os interesses do Brasil e à liberdade. Mas isso é no discurso.

Na prática, tudo é diferente. Bolsonaro esperou uma hora para se declarar a um Trump com o processo de impeachment aberto e sequer teve seu amor fascinado correspondido, com um "I love you" nada diplomático, em uma conversa de 17 segundos, cuja resposta foi "é bom te ver de novo", como um vassalo qualquer, contrariando o próprio discurso, se curvando de forma humilhante ao presidente americano, como um adolescente que vê seu ídolo. Lembremos também que Eduardo Bolsonaro almeja ser embaixador nos Estados Unidos.

E quando Bolsonaro fala, corretamente, diga-se, em liberdade, na prática, deveria fazer o mesmo. Liberdade religiosa é defender todas as religiões e aqueles que não tem religião, não apenas a sua. Liberdade de expressão é liberdade para que todos falem, não apenas aqueles que se colocam à favor do que o presidente acredita. Liberdade na cultura é liberdade para que qualquer artista crie aquilo que bem entender, dentro do que acredita, dentro ou não de sua ideologia, não apenas aquela cultura que corresponde o que o presidente acredita e gosta ideologicamente. O discurso pode até ser bonito, mas a prática precisa acompanhar, o que não se vê por aqui.

A segunda análise é a interna, e essa foi excelente ao presidente. Porque suas mensagens conspiracionistas, ataques a países ideologicamente contrários ao regime do atual presidente e defesa do agora ministro Sérgio Moro, num comentário que faz alusão à prisão de Lula, agrada à claque fiel de Bolsonaro, fortificando sua base, numa espécie de discurso próximo às campanhas eleitorais.

Nesta mensagem interna, há um erro grave levado ao meio internacional. O juiz Sérgio Moro vive o escrutínio público com os vazamentos de conversas da Lava Jato feitos pelo The Intercept Brasil. Quando Bolsonaro vai à ONU e cita Moro, chamando-o de juiz, dizendo que ele condenou Lula e hoje é seu ministro, o presidente leva à comunidade internacional um problema interno sério sem necessidade: seu atual Ministro da Justiça condenou meses antes o seu principal adversário político da eleição. Cabe dizer que aqui não estamos fazendo valor sobre se a condenação de Lula é justa ou não, estamos falando em aparência. E na vida, não basta ser honesto, tem que parecer honesto – e neste caso, não parece.

Mas por mais errôneo que seja levar isso à ONU, o objetivo é claro: o apoio a Sérgio Moro no maior palco político mundial, no momento que se vê com as costas contra a parede no Brasil, vem com uma dívida. Com o filho Flávio na berlinda em escândalos de corrupção, Bolsonaro joga um peso ao colo de Moro para que, usando seus poderes de superministro, acoberte e salve o "zero um", seja de uma cassação de mandato ou seja de uma possível prisão.

Existem discursos e discursos, e em uma avaliação entre os objetivos internacionais e internos do que Bolsonaro levou à ONU, conclui-se que o presidente não foi disposto a defender o Brasil e seus interesses, mas para defender a si mesmo e sua família, jogando para sua base e para aliados políticos.

O dólar já está R$ 4,14, mas quem está contando?

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