ANO: 25 | Nº: 6383

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
28/09/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

É possível...

O jornalista Armando Nogueira, entre tantas outras coisas geniais, sentenciou: "Você pode criticar sem ofender e elogiar sem bajular". Ao que me consta, esse era um conselho que ele dava para os jornalistas novatos com quem trabalhava nas redações.

No passado, quando ele disse isso, os destinatários desse conselho eram poucos e bem identificados, pois eram aqueles que ocupavam um "lugar de fala" não muito comum e longe do alcance da maioria dos mortais. Neste contexto, a repercussão das manifestações destes destinatários era muito maior e, por isso, o cuidado e a ponderação do conselho do velho e experiente jornalista, fazia muito sentido.
Pois bem, as redes sociais e a confirmação da profecia de Andy Warhol no sentido de que "no futuro, todos terão seus quinze minutos de fama", popularizou e multiplicou vertiginosamente os "lugares de fala" fazendo com que, literalmente, qualquer um possa externar suas opiniões publicamente. Ao mesmo tempo em que esse fenômeno abriu generosos e democráticos espaços para as mais diferentes opiniões, revelou que teria sido melhor que a maioria delas jamais tivesse saído da mente de seu autor. Por outro lado, como disse a também jornalista Cláudia Laitano, no início desta década: "O que temos aprendido, nesses primeiros anos de rede mundial, é que quanto menos se pretende dizer, maior é a chance de que o mundo inteiro esteja disposto a parar para ouvir.", ou seja, nesse turbilhão de opiniões e manifestações sempre tem uma ou outra que pode viralizar e ganhar dimensão desproporcional à qualidade de seu conteúdo. É uma triste, mas inegável probabilidade estatística.
Então, mais do que nunca, é importante relembrar a lição do velho jornalista e estendê-la em conteúdo e em abrangência, para atingir o gigantesco número de internautas e de cidadãos que não tem fastio em abraçar inúmeras causas e virar um militante empedernido e intragável que consegue transformar em palanque qualquer espaço de manifestação, sem nenhum senso de oportunidade e respeito, nunca perdendo a oportunidade de puxar a brasa para o seu assado. Especializados em descobrir agressões subliminares em qualquer deslize no discurso dos outros, ficam sempre procurando 'guampa' em cabeça de cavalo como se todos em sua volta fossem potenciais adversários ou inimigos. E, o pior, fingindo não perceber que as polêmicas constrangem e dividem não só as opiniões, mas, também, as amizades.
Assim como é possível criticar sem ofender e elogiar sem bajular, é possível, também, advogar a sua causa com parcimônia e evitando confrontos desnecessários e generalizações infamantes. É possível lutar contra o racismo sem açoitar os brancos, defender os pobres sem condenar os ricos, professar sua fé sem amaldiçoar a fé ou a descrença alheia, militar pelo feminismo sem demonizar os homens ou ignorar a natureza humana, posicionar-se contra a homofobia sem menosprezar a heterossexualidade. Enfim, como alertou Leandro Karnal, "a catequese é sempre chata" e se a sua luta pela sua causa vier desacompanhada desta capacidade de moderação e de um mínimo senso de oportunidade e conveniência, você deixa de ser um militante para ser um catequista. E catequistas, como dogmáticos que são, não sabem dialogar, pois adoram um monólogo.
Karnal ainda completa dizendo que o diálogo só é possível com pessoas que saibam e reconheçam suas próprias limitações, e que aquilo que elas fizerem no mundo, seja o que for, é irrelevante em relação aos demais, apesar de ser relevante para elas.

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