ANO: 25 | Nº: 6401

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
28/09/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

O clero bajeense (1833-1905)

Pe. JERÔNIMO JOSÉ ESPÍNOLA. Natural da Ilha da Madeira, tendo se naturalizado brasileiro em 1844. Foi pároco de Alegrete e Cura de Bagé (1833-1836), depois de Livramento e, finalmente, pároco em Pelotas. É certo que aderiu por algum tempo ao Vigário Apostólico da República. Faleceu em Pelotas a 29 de janeiro de 1845.
Pe. HILDEBRANDO DE FREITAS PEDROSA.Faltam dados de seus primeiros anos, sabendo-se que nasceu em Viamão, terra que sempre apreciou. Estuda no Seminário do Rio de Janeiro, onde foi discípulo de Dom José Caetano da Silva Coutinho, que o ordenou em 20 de dezembro de 1829. Veio para o Sul e exerce alguma atividade. Apesar de dotado de boas qualidades e manter-se fiel ao sacerdócio, cedo envolveu-se nas tramas políticas de seu tempo. Adere ao movimento revolucionário com entusiasmo, acompanhou os passos da novel república, sendo o autor, como bom desenhista que era, do brasão de armas da República Farroupilha. "O que se poderia estranhar o triângulo maçônico nele desenhado. Teria pertencido à maçonaria? Provavelmente não", diz o historiador Arlindo Rubert. Mais tarde consta ter se oposto à mesma. Foi pena que o religioso tivesse aceito a jurisdição do pseudo Vigário Apostólico, "tornando-se cura cismático de Bagé, de 1841 a 1844". Em 1842 é eleito deputado à Assembleia Legislativa de Alegrete, 3ª e última capital da efêmera República. Encerrado o movimento farrapo, o Pe. Hildebrando recolhe-se, sem uso de Ordens, na freguesia de Triunfo. Por ocasião da Visita Pastoral de Dom Manuel de Monte Rodrigues de Araujo, em 1845, estando em Triunfo, o pároco local Pe. José da Cunha e Sousa busca sua reconciliação com a Igreja, tendo falado com o bispo neste sentido, o qual após diálogo, escreve que no Rio não se ouvia falar bem dele, eis que comprometido com a Revolução, mas achando-o boa pessoa e havendo informações positivas a seu respeito faz mais, tendo-o absolvido e nomeado 1º pároco da nova paróquia de São João do Camaquã (1856-1861), aonde o religioso se devota aos seus misteres, chamando a atenção de seus superiores que o aproveitam em cargos maiores. Foi-lhe facultado o uso de insígnias canônicas e outros privilégios, que ele declina com modéstia. Atua com correção a favor de seus paroquianos, mas o fato mais saliente, que veio demonstrar sua fidelidade e fibra de pastor acontece em 1875 em Porto Alegre, em episódio maçônico. Naquela época a maçonaria se mostrava hostil ao bispo e à Igreja Católica, em vista da Questão Religiosa. Em 1875 falece um maçom ilustre, João Carvalho Barcelos. Seus irmãos de fraternidade exigem solenes exéquias na Catedral, com a presença do bispo, do Cabildo dos cônegos e do clero. Estava tudo preparado, mas o bispo se ausenta e todos se recusam a comparecer. Sobra para o cura da Catedral, que era o Pe. Hildebrando, que se limita a fazer uma simples encomendação, o que enfurece aos maçons, que, no meio do ato, derrubam castiçais e arrebatam o caixão, dando "vivas à maçonaria e morra aos padres". O cura se retira para sacristia, mas vão ao seu encalço e o interpelam. O bispo não tinha proibido a participação do clero, a que ele respondeu negativamente, pois Dom Sebastião estava ausente, e "caso o tivesse feito, ele teria sido o primeiro em obedecer". Foi um escândalo. Dom Sebastião faz uma representação na Corte sobre o acontecido, com a profanação da catedral, donde veio forte reprimenda para os maçons. Falecendo o pároco de Rosário, o mui estimado Pe. José Inácio, o bispo indica o Pe. Hildebrando, o qual, já idoso, assume em 1877, que dirige com exemplar dedicação, tendo falecido "com todos os sacramentos" em 25 de julho de 1881.
Pe. DOMINGOS ANTÔNIO IPPOLITO (HIPÓLITO). Filho de Costábile Ippolito e Brígida Di Giaimo, nasceu em 12 de novembro de 1836 na Paróquia de Madonna Assunta de Castellabate, Cava dei Tirreni, Província de Salerno, Itália. Ex-noviço beneditino, ordenou-se em 1860. No Brasil o sobrenome materno transformou-se em "Jayme" para honrar sua progenitura, tanto que se assinava como "Pe. Domingos Antônio Hipólito Jayme". Foi tio do Monsenhor Costábile Ippolito (Hipólito), pároco de Bagé. Vindo ao Brasil, por decreto imperial de 08 de julho de 1874 é nomeado Capelão-Tenente do Exército, cargo que ocupa por largos anos nas guarnições do Rio Grande do Sul,especialmente em São Gabriel. Pregava bem e possuía grande coragem, tendo sustentado vários duelos. Faleceu em São Gabriel, aos 64 anos de idade, a 20 de setembro de 1900, "com os socorros da Igreja".
CÔNEGO JOÃO INÁCIO BITTENCOURT. Nasceu na Paróquia do Rosário, em Porto Alegre, a 16 de janeiro de 1835, tendo estudado no Seminário Episcopal de Porto Alegre e ordenado presbítero em 29 de junho de 1863 por Dom Sebastião Dias Laranjeira. Instalado o Cabildo de Porto Alegre nele se incorpora como cônego em 1863. Quando Dom Sebastião entende intervir no Cabildo, para coibir desmandos, deixa-se arrastar na revolta de alguns colegas contra o bispo, sendo suspenso de ordens, ofícios e benefícios. A rebelião dura alguns anos. Os revoltosos recorrem, sem êxito, à Coroa, eis que matéria exclusivamente do bispo. Sem "côngrua para sobreviver" João aceita um cargo civil no governo provincial, mas tendo seus méritos sido reconhecidos, é absolvido e, em 06 de agosto de 1872 foi provisionado Pároco de Bagé. Quando se cuidou, pelo então direito do padroado, a apresentar um pároco colado para a freguesia, os cidadãos bajeenses se movem para pleitear sua nomeação, aparecendo dois abaixo-assinados de 30 de dezembro de 1875, com centenas de assinaturas, pedindo ao Imperador a nomeação do Cônego Bittencourt como cônego colado ou perpétuo. Dizia o texto do documento: " Acostumados a ouvir a palavra cheia de fé desse ilustre sacerdote, a aprender em suas obras o exercício do bem e em seu exemplo a prática da virtude. Não pode este povo ser indiferente à nomeação de um vigário para sua freguesia, tanto mais quando o contínuo desvelo desse ilustre varão por seus amados paroquianos e a série não interrompida de seus atos caritativos, tem identificado pastor e rebanho". Lembram ali os bajeenses o empenho do sacerdote na construção de grande parte da igreja matriz e a avultada coleta em favor das vítimas da inundação de Porto Alegre. Concluem os subscritores dos documentos que a frequente mudança de párocos, de caracteres diversos, se torna prejudicial, principalmente quando todos estão habituados a aceitar a palavra cheia de unção de um vigário venerado e respeitado pela população e que nele deposita sua confiança. " Pessoas importantes assinam o requerimento entre elas o Barão de Itaqui, o juiz de direito, o médico Dr. Amâncio Pereira Caldas, o negociante José Antônio Garrastazu, etc". Também as senhoras de Bagé se dirigem ao Imperador, com centenas de assinaturas, alegando a boa orientação e educação da família, dizendo: " E quando a sorte tem doado a Bagé com o Ver. Cônego João Inácio Bittencourt, que por tantos títulos se tem recomendado à pública veneração, não podem as abaixo-assinadas, que à difícil tarefa se acham investidas no seio da família, deixar de sentir com mágoa a preferência que porventura se dê a outro na vigaria desta freguesia". Quando aberto em Bagé o Hospital de Caridade, em 25 de março de 1877, o Cônego João Inácio foi eleito provedor do mesmo. Por 35 anos, "com muitas fadigas atendeu a vasta freguesia", vindo a falecer no cargo a 31 de outubro de 1905, aos 70 anos, "na estima de seu povo. Não se encontrou confirmação de alguns boatos de que teria perfilhado. Aliás, foram vozes discretas e de pouca consistência".
Pe. FRANCISCO MARIA DE BERNAULA. Oriundo da Espanha, foi brevemente Cura de Bagé, em 1843, "ignorando-se se legítimo ou cismático". (continua).


Pesquisa: "O antigo clero diocesano do Rio Grande do Sul (1737-1910) ", de Arlindo Rubert. Santa Maria: Pallotti, 2005.

 

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