ANO: 26 | Nº: 6573
02/10/2019 Luiz Coronel (Opinião)

A orquestra ou concerto em dó maior


As partituras de óperas e rapsódias se misturaram. O maestro abdica da batuta e ostenta uma metralhadora. Nos camarotes, as elites políticas deitam champanhe em elegantes tulipas. Os instrumentos de cordas em discordância absoluta. O violino discorda do violoncelo. A plateia, à esquerda e à direita, sem nada saber do que se passa no palco, come pipoca. Os teclados têm notas falsas ou mal havidas. Os cenários ostentam onze personagens sinistros envoltos em solenes capas pretas. O sopro sopra um grande suspiro, e os tambores metralham o respeitável público. Os bailarinos estão nus, pois suas fantasias foram penhoradas pelo banco. O martelo bate três vezes. Eis o Brasil e seu espetáculo!
Combate eletrônico – entrei em acirrado combate eletrônico com o ex-ministro Marun. Ele, um "garantista" dos quatro costados; eu, um "lavajatista" segundo sua qualificação. O duelo conquistou torcida. De minha parte, a convicção de que ante os imensuráveis problemas enfrentados pela justiça no país, índice de assassinatos, presídios-masmorras e lentidão processual, o ingresso da questão "abuso de poder" é revelador de gato na tuba. Trata-se de um aliviante salvo-conduto a indiciados e a condenados do colarinho branco. Do alto de sua exuberância, Marun eleva-se contra derrapagens, desrespeito aos ditames processuais cometidos pela Lava Jato, trazendo um libelo pela sacralidade do direito de defesa amplo e ritualístico dos indiciados. "O pior combate é aquele em que a duas partes estão certas e erradas", disse Churchill. Mas não arredo pé de meu ponto de vista: quem mais festeja a lei do abuso de poder são os indiciados, os partidos viciosos, os contingentes arregimentados pela trampolinagem, assentados no poder. Marun é um homem de estado. Sou apenas um cidadão brasileiro. Marun atribui a si mesmo robusta sabedoria jurídica. Os pássaros têm intuição da tormenta, o povo intuição da história. Jogo no tabuleiro meu sensível conhecimento da história pátria.
O essencial e o alegórico – Em nosso país, com pontual frequência, fatos aleatórios causam eclipse a acontecimentos relevantes. Durante o carnaval, sob o som dos tamborins, sapos e lagartos, despercebidamente, são engolidos pelos nossos patrícios. Ou seja: o noticiário também faz seu carnaval. Chego a pensar que os anjos, aos quais o Senhor confiou zelar pela nação brasileira, ou estão de greve ou tiraram férias.

 

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