ANO: 25 | Nº: 6361

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
03/10/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Homem primata II

O intelectual contemporâneo é um selvagem. Tem ódio visceral da alta cultura. Habitualmente, comporta-se como um ridículo serviçal ideológico. De maneira sorrateira, esbanja conhecimento atolado na ignorância. Onipresente na mass media, sempre recebe a valorosa qualificação de “especialista” como se isso lhe garantisse idoneidade. Dentro de bolhas acadêmicas, o bárbaro letrado regozija-se na torpe militância política e é tolerante com o que lhe convém.

Assim, o erudito pós-moderno não pensa, pensando. É um vendilhão que não tem pudores em negociar a verdade. É um ser pródigo em criar ilusões. No íntimo de sua esquizofrenia mental, qualquer pensamento fora de suas linhas de produção é visto como indigno e pouco “científico”. Por bestialidade ou por maldade, julga que o atraso cognitivo sempre está no outro. Para esse sábio, fatos importam menos do que ideias. A realidade sempre é um produto de sua mente, ou seja, uma narrativa aberta aos seus próprios interesses.

No início deste ano, em entrevista para a revista Época, a renomada historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz mostrou as enrugadas faces do primitivismo intelectivo. Ao tecer comentários sobre a gestão do presidente Jair Bolsonaro e estabelecer pequenas reflexões sobre a questão educacional no Brasil, ela foi taxativa ao relacionar o atual governo com o fascismo, declarando que atualmente a Hungria, os Estados Unidos e a Venezuela (ultimamente a esquerda vende a ideia de que nunca apoiou o regime Chávez-Maduro) podem assim ser enquadrados, acrescentando: “E essa onda conservadora chega agora ao Brasil”. Para a ilustre “pesquisadora”, fascismo e conservadorismo são análogos, e o caso da Venezuela pode ser visto como parte de uma “onda conservadora”. A bizarrice da correlação beira às raias da loucura, mas obedece à lógica de desinformação e deturpação da linguagem, produzindo um sentido distinto para a realidade.

Mas, de acordo com a expressão popular, isso é café pequeno perto de outra resposta de Lilia. Ao ser indagada pelo jornalista acerca das razões pelas quais a cultura (leia-se: a “arte” que está de acordo com o progressismo) era alvo de ataques por parte de Bolsonaro, a historiadora foi enfática: “Existe um ataque muito grande a todas as formas de educação, e a cultura está neste bojo. E um país sem acesso às várias formas de cultura é um país fadado a ser conservador”. Ora, aqui a expert mostrou toda sua “sabedoria”. Indiretamente, afirma que uma nação que apresenta o destino funesto do conservadorismo é aquela que se encontra nas trevas da ignorância ao rejeitar o pluralismo cultural. Mostrando total desprezo à educação e cultura transmitidas pela literatura e práticas conservadoras, assassinou essa visão de mundo, imputando-lhe uma falsa aversão e acusando-lhe de rejeitar aquilo que tanto preza: conhecimento. E não há conhecimento sem diversidade de ideias. Mas é óbvio que qualquer crítica direcionada à “especialista” Lilia será tomada como uma prova da “hostilidade” contra os intelectuais, típicas de nossos tempos...

Se existe algo que poderá espantar as gerações vindouras, será o elevado grau de condescendência e omissão perante as asneiras naturalizadas dos dias de hoje. Ou, talvez, como concedemos espaços privilegiados para que os portadores da estultice se mostrassem ao mundo.

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