ANO: 25 | Nº: 6361

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
05/10/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

O Clero bajeense (1811-1906)

Quando Pedro Fagundes de Oliveira, comandante da Guarda de São Sebastião, acolhe o pedido de Dom Diogo de Sousa para que assumia e direção do Acampamento de Bagé, junto ao primeiro administrador vieram muitos moradores de São Sebastião e com ele também a imagem do Santo que seria um dos padroeiros da futura povoação. Monsenhor Agostinho José Mendes, Visitador do Continente Sul, em 1812, reza a primeira missa ainda na fazenda onde estava erigido um pequeno oratório, o que foi continuado pelo padre Tomás Silveira de Matos. Esse rancho, que também hospedara militares, se transforma no primeiro templo. Mais tarde uma procissão translada a imagem para o Oratório de Bagé, em 20 de janeiro de 1813. O primeiro sacerdote que deu assistência espiritual foi o padre José Loureiro, que era mantido pelos habitantes do local. Seguiu-se o padre Gervásio Antônio Pereira Carneiro que atendia a população durante viagens, pois o distrito era dependente da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira e adido à Capela Curada de Nossa Senhora da Assumpção de Caçapava.
Segundo Tarcísio, os habitantes liderados por João Manoel Boleno pleitearam que o Oratório de São Sebastião de Bagé fosse erguido na povoação, o que obteve chancela do Príncipe Regente Dom João, sendo criada a Freguesia. Mais tarde o bispo do Rio de Janeiro, em andanças, autoriza aos bajeenses a construir uma capela em honra a São Sebastião, o que foi feito com muitas dificuldades, sendo depois autorizados a a ter uma pia batismal e o sacrário. Ela é elevada a Capela Curada sob a direção do padre Gervásio, vindo a imagem, em definitivo, em 1820. O segundo administrador, Ricardo Antônio de Mello não permite a construção em pedra, sendo a capela acanhada, nada mais que um "galpão coberto de palha", mais tarde aquinhoado com sinos (1822). Em 1826, assume como capelão o padre Joaquim Paulo de Sousa Prates. Durante a invasão argentina de 1827, a população se retira do povoado. A capela é poupada por Lavalleja, mas não tem a mesma sorte com o general Alvear cuja tropa saqueia e rouba, destruindo parte do templo depredado, que tem seus livros rasgados.
Regressando da Guerra Cisplatina o exército comandado pelo capitão Emílio Luís Mallet, em 1826, esse brioso militar casa-se ali com Joaquina Castorina de Medeiros, filha do fazendeiro Antônio Medeiros Costa. Em 1829, retorna o padre Gervásio, que fora nomeado para a Freguesia de Piratini. Nas vizinhanças, em vista da religiosidade do povo, aparece a Capela em homenagem a Santo Antônio, em Lavras do Ouro, "nas imediações do Camaquã-Chico". Logo as Capelas de Bagé, São Gabriel e Santa da Boa Vista passam a integrar a Comarca Eclesiástica de Caçapava. Em 1834, o cemitério era mudado para a atual rua Salgado Filho esquina General Osório.
Em 15 de novembro de 1835, outro acontecimento engalana a Capela de São Sebastião: o casamento do tenente Manuel Luís Osório com Francisca de Oliveira, filha mais velha de Zeferino Fagundes de Oliveira "figura de prestígio local, por diversas vezes eleito Juiz de Paz do Distrito". Durante a Revolução Farroupilha a vida bajeense se desorganiza e o padre Gervásio se retira do povoado (1836), seguindo-se aqui uma sucessão de curas: Antônio Homem de Oliveira (1837-1838), Jerônimo José Espínola (1838-1840) e Hildebrando de Freitas Pedroso (1841-1843). Os dois últimos já foram tratados no artigo anterior. Em 1843 aqui chega o Vigário Apostólico do Estado, padre Francisco das Chagas Martins Ávila e Sousa que preside batizados e empossa o padre Lourenço Cazas Novas, de nacionalidade italiana, e que teria com Caxias o famoso episódio de 15 de novembro de 1844, quando o militar sugeriu fazer uma missa de defuntos para todos os mortos na refrega e não um solene Te-Deum como queria o sacerdote. Em janeiro de 1846, pela primeira vez, Bagé tem uma visita pastoral feira pelo Cônego José Antonio da Silva Chaves, enviado do bispo do Rio de Janeiro, a que pertencia a diocese do Rio Grande do Sul.
Por ação entusiasmada do deputado Manoel Marques de Souza, em 5 de junho de 1846, Bagé é sucessivamente elevada a Freguesia e Município; e em 4 de setembro de 1849 Bagé se torna Comarca Eclesiástica, sendo vigário o padre Lourenço Cazas Novas, mais tarde eleito vereador em 17 de julho de 1852, ocupando até as funções de "claviculário", ou seja, guardião das chaves do cofre da Câmara. Para auxiliar o Pe. Lourenço é nomeado coadjutor o Frei Francisco da Santíssima Trindade. Em julho de 1857 o padre Cazas viaja para a Itália, sua pátria, onde falece, para cá vindo de Sorocaba o padre Cândido Lúcio de Almeida.

MONSENHOR COSTÁBILE IPPOLITO (HIPÓLITO). Filho de Andrea Ippolito e Joana de Sessa, nasceu na Paróquia de Madonna Assunta de Castellabate, Abadia de Cava dei Tirreni, Província de Salermo, tal como seu tio padre Domingos Ippolito, aqui já retratado, que o trouxe para o Rio Grande do Sul. Costábile foi noviço beneditino em dita Abadia. No Seminário de Porto Alegre, completa seus estudos, sendo ordenado em 2 de agosto de 1891 por Dom Cláudio José Ponce de Leão. Hábil e inteligente foi apreciado orador sacro. Distingue-se como educador da juventude. Foi Pároco em igreja no Bairro Menino Deus (1893-1896), e depois na Igreja do Rosário (1896-1906). Trouxe os irmãos maristas para Porto Alegre, sendo fundador do Colégio Rosário, estabelecimento de que se originou a Pontifícia Universidade Católica. Quando falece, em Bagé, o Cônego João de Bittencourt, consta que a maçonaria local não queria mais vigário no município. Dom Cláudio escreve aos líderes bajeenses que haveria de "lhes mandar um pároco, que seria também amigo deles (daí, possivelmente, provém a lenda que Costábile era maçom). Com essa estratégia, em 1906, Costábile foi provisionado Vigário de Bagé, "onde, por meio século, fez o que pode para manter e desenvolver o espírito religioso da difícil e extensa freguesia, evitando atritos com os anticlericais". Aqui, o Monsenhor tenta trazer os maristas para fundar um colégio em Bagé o que, todavia, não acontece, eis que ditos religiosos desistiram da empreitada fato que se deve muito à chegada dos salesianos, também apadrinhados por Costábile. Hipólito dedica-se também à misericórdia com os pobres. Por duas vezes foi eleito Vigário Capitular da Diocese de Pelotas e Cônego Honorário do Cabido de Porto Alegre. Deixa o cargo de pároco em 1955. Falece em 13 de agosto de 1956, aos 94 anos.

Leituras. "A Igreja de São Sebastião de Bagé", de Tarcísio Antonio Costa Taborda, 1975 (Capa de Glauco Rodrigues, com longo e erudito prefácio de Dante de Laytano). "O Antigo Clero Diocesano do Rio Grande do Sul )1737-1910), de Arlindo Rubert, Gráfica Pallotti, Santa Maria, 2005.

 

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