ANO: 25 | Nº: 6398

Dilce Helena Alves Aguzzi

dilcehelenapsicologa@gmail.com
Psicóloga
08/10/2019 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Quem fala o que quer ouve o que não quer?

Há pessoas que sugerem outro rumo ao ditado popular "quem fala o que quer ouve o que não quer", dizendo o que querem e driblando a resposta das formas mais variadas possíveis, seja por total falta de noção, egoísmo, talento para o monólogo ou apenas sinal dos tempos.

Aqui vão alguns perfis desta prática que tem levado conversas do cotidiano a novos níveis da falta de comunicação:
- Aquele que fala e não fica para ouvir a resposta. Nem disfarça, tem no discurso apenas o ato de por para fora aquilo que tem de mais tóxico ou incômodo em si mesmo, é praticamente uma excreção.
- O tipo ofendido. Talvez dissimulado, ou apenas não plenamente consciente do conteúdo que expressa, fica chocado e magoado com o que recebe em troca. Simplesmente não aceita a resposta, não considera justa, não vai ouvi-la.
- O que fala mansamente sua opinião, mas ao surgir um retorno grita e xinga para intimidar uma possível réplica. Esse crê que possui o direito de falar, mas com o poder de pular a parte desagradável de ouvir o que sua opinião provocou.
- E há os tipos que cansam seu interlocutor simplesmente falando junto e mais alto, não dando oportunidade de diálogo. Esses vencem pelo cansaço.
- Um dos que considero mais engraçado é o modelo que até ouve parte da resposta, mas interrompe determinado: Tu não entendeste! E segue a explicação... cansativo!
- Certamente, aquele que mais cresce é o "tipo web". Escreve o que bem ou mal entende a respeito de quem quer que seja ou sobre assunto que pouco domina, tanto faz. O objetivo é notoriedade, não há argumentação plausível que eleve o debate e se ele se sentir atacado simplesmente exclui de sua lista de contatos.
- Um subgrupo do tipo web igualmente crescente em adeptos é o que manda mensagens de voz. É o exemplo vivo do que saliento aqui, ele tem tempo para falar, mas não tem para ouvir. Este tipo de pessoa realmente acredita que o que tem a dizer é muito importante para os outros, mas não quer ouvir resposta, por isso não liga, manda mensagem gravada. Ou seja, só ouvirá a resposta que lhe interessar.
Fugir desses modelos exagerados pode até ser difícil em tempos de interatividade, instantaneidade e excesso de estímulos, mas certamente vai gerar modelos de comunicação mais eficientes e verdadeiros. Pense um pouquinho sobre isso, ouvir é compreender, aprender, conhecer. Muitas vezes, escutar pode ser bem amargo, mas ainda é a dialética a melhor chance de se chegar a verdades significativas.


Os novos níveis da
falta de comunicação

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