ANO: 25 | Nº: 6399

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
10/10/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Homem primata III

A estética do feio é o eterno reforço do que é belo. A serventia do ruim surge na manifestação dos instintos para o que é bom. A idolatria do eufórico está no desencontro com a ponderação. O descontentamento do utópico é a afirmação da realidade. O aprimoramento do descartável está na desgraça do perene. O brilho do irracional mostra-se nas sombras da racionalidade.

Nos últimos dias, uma pintura de Banksy, de 2009, intitulada “Devolved Parliament” (algo como “Parlamento devolvido”), foi leiloada pela bagatela de US$ 12,1 milhões. A “obra” retrata chimpanzés sentados e discutindo na Câmara dos Comuns, importante casa legislativa britânica, em substituição aos representantes humanos que ali deveriam figurar, o que, para os “especialistas”, se encaixa perfeitamente no atual momento político do Brexit.

Vendida em 13 minutos, a tela do misterioso “artista” de rua, famoso por deixar seus registros em paredes alheias, foi adquirida por um comprador desconhecido. Ácido crítico do capitalismo e visto como rebelde com causa, Banksy é venerado pelo amplo sistema progressista. E é inegável que seu sucesso é devedor do ideal revolucionário de modificação cultural com vistas a uma utopia. Banksy é um receptáculo de uma herança que afirma que a boa arte é a arte engajada politicamente, desde que à esquerda. Ou que a ideia de beleza é uma mera questão de gosto. Sem essas condições, que misturam “intelectuais” e militantes do esquerdismo, esse “artista” seria absolutamente irrelevante.

Mesmo que tenha uma boa dose de originalidade em suas produções, estimulando pequenas considerações, é curioso verificar como a ausência de harmonia, graciosidade, proporção e busca pela perfeição com vistas a algo que pavimente o caminho da transcendência, é algo ausente nesse enigmático “artista”. Naquilo que Banksy produz não há espaço para contemplação: uma observação ligeira já é suficiente para extrair escassos significados.

Mas o problema não está no guerrilheiro da “arte”. É algo mais profundo e que retrata a ausência de um sentido existencial típico das últimas gerações. Afinal, sem um público que valorize um “artista”, não há “artista”. Ele, que recentemente, por meio de pesquisa de opinião popular, foi escolhido o pintor favorito de todos os tempos entre os britânicos, ficando na frente de nomes como Van Gogh e Michelangelo, consegue revelar o quão efêmero está o espírito de nossa época. Detrator do capitalismo, Banksy lucra como nunca; revoltado com o sistema social, Banksy aliena os indivíduos no seu pobre sistema “artístico”; e, como revolucionário, cumpre bem o seu papel de implodir a tradição.

Sobre a tela leiloada, Alex Branczik, chefe do departamento de arte contemporânea europeia da Sotheby’s (casa responsável pelo leilão), declarou que a genialidade de Banksy está em reduzir a uma imagem um debate complexo e que pode ser facilmente compartilhada pelas mídias sociais. E acrescentou que a “obra” mostra “a regressão da mais antiga democracia parlamentar do mundo a um comportamento animalesco-tribalista”. Será que uma “arte” digna usaria como justificativa de sua qualidade a capacidade de ser difundida pelas fúteis redes sociais? Não seria o comportamento político um reflexo de nossos costumes culturais? Antes de criticar Banksy, lembre-se que ele diz muito sobre nós.

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