ANO: 25 | Nº: 6379

Dilce Helena Alves Aguzzi

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Psicóloga
22/10/2019 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Quando o melhor é calar

Parece que vivemos tempos em que há a obrigação em responder a tudo e a todos, como se fosse um debate permanente; onde o vencedor, o mais eficiente, é aquele que nada deixa sem resposta, seja em atitude, fala ou acontecimento.
Pois confesso que ando bastante cansada disso. Proponho o silêncio. Enalteço o poder de calar, não dar resposta, perceber a hora exata de nada dizer. Não se trata de ignorar ou menosprezar seu interlocutor ou os acontecimentos da vida. Não. É exatamente o contrário, é dedicar silêncio, reflexão e acolhida no seu mundo interno para o que está acontecendo.
Calar pode também significar crescer. Silenciar pode ser interpretado de várias formas, como tudo na vida, e não falar é assumir o risco. Abrir mão da responsabilidade de defesa, de explicação, de esmiuçar tudo, esquadrinhar irritantemente qualquer assunto, tema ou questão. Que forma chata de viver!
Não se trata de fazer voto de silêncio. Refiro-me a perceber que em certos momentos há mais vida no calar que na fala insana de recortes cotidianos que disfarçam com barulho o que o silêncio, muitas vezes perturbador, poderia revelar. A necessidade em responder a tudo, além de desgastante não favorece mudança positiva de atitudes rumo ao crescimento, pois impõe uma ação defensiva, reacionária, estagnada. Quem tem razão não muda, pois está certo, apenas tenta manter-se. Isto! Discutir sempre, rebater sempre, dar respostas a todos, provar ao mundo o tempo todo é estagnar. Calar, ao contrário, é cessar o movimento desnecessário rumo à ação, que como todas mais importantes, começa por dentro.
Em psicoterapia quase nada assusta tanto o terapeuta novato quanto o silêncio que invade a sala vez ou outra durante uma sessão. Soaria como um fracasso, incompetência uma vez que nessa abordagem a cura se dá pela palavra. Com o tempo vamos aprendendo e percebendo que o silêncio também comunica, significa, revela, ensina e estimula. Aceitando o desconforto inicial e o enfrentando, o silêncio pode pesar o ambiente favorecendo a reflexão. Também pode expressar o respeito pelo ritmo que cada um tem e que não existe obrigação de se falar constantemente. Assim vamos aprendendo a identificar e valorizar os silêncios dos outros e não os interpretar à luz egoísta dos que se manifestam por culpa nossa.
Importando da psicoterapia o valor do nada dizer em alguns breves momentos, de uma vida tão poluída sonoramente, seguem algumas sugestões de quando o melhor é calar:

- Tudo o que é dito está sendo mal interpretado.
- Não sabemos mais sobre o que estamos falando.
- O motivador da fala não é a busca da verdade ou do bem.
- Há sinais de cansaço.
- O assunto simplesmente não interessa.
- O principal motivador é a vontade de ter razão.
- Quando magoado, irritado ou com raiva.
Nessas e outras situações em que a pressão por ter uma resposta imponha-se sobre a razão e sua vontade, cale, pondere, aceite o desconforto inicial, permita que o silêncio envolva a situação. Depois disso, se houver resposta a ser dada, ela virá de fonte mais profunda e verdadeira que a ânsia por salvar posição.


Quem tem razão não muda

 

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