ANO: 26 | Nº: 6590

Luiz Fernando Mainardi

luiz.mainardi@al.rs.gov.br
Deputado Estadual
23/10/2019 Luiz Fernando Mainardi (Opinião)

O Chile, Guedes e Leite


Todos estamos acompanhando a trágica situação que vive o Chile nas últimas semanas. Um simples aumento da tarifa do metrô gerou uma das maiores insatisfações populares em toda a história da América Latina. O governo recuou do aumento, mas o ímpeto popular não recuou.
A situação parece paradoxal para quem ouve falar que o Chile é um exemplo para a America Latina e para o Brasil. O próprio ministro todo poderoso da economia brasileira, o Paulo Guedes, já citou mais de uma vez a economia chilena como uma referência para o Brasil.
Ontem, entretanto, a economista chilena Jaqueline Haffner, que mora em Porto Alegre e é pesquisadora da UFRGS, deu algumas pistas sobre o que está acontecendo lá em uma entrevista para jornal da capital. "A população disse chega", é uma das suas frases. Segundo a professora, desde o golpe militar, o Chile implementa uma política econômica hiper-liberal, baseada em uma linha econômica conhecida como "Escola de Chicago", por ter se originado na Universidade daquela cidade americana.
Esta linha defende como saída para os gargalos do desenvolvimento, as privatizações da maior parte possível da economia e dos serviços do Estado. Assim, no Chile, por conta desta hegemonia, não tem ensino universitário público, não tem saúde pública e sequer conta com uma aposentadoria pública, tendo tudo sido privatizado.
Até mesmo a infraestrutura do país é totalmente privatizada. Conforme diz a mesma professora, "O Chile foi privatizando todos os setores da economia. Até a água foi vendida....Em Santiago, há autopistas rápidas, que se paga para circular. Caso contrário, você tem que contornar a cidade, o trânsito é mais lento. As classes médias vão ficando cada vez mais excluídas porque os salários não são suficientes para pagar por todos esses serviços privados....Se você for a Santiago, como turista, vai achar maravilhoso; tudo funciona, tudo é limpo, o metrô é como na Europa, mas é tudo privado. O custo disso para a população é cada vez maior e os salários não aumentam."
O relato da professora é uma distopia possível de se repetir aqui no Brasil. Não apenas porque o guru da economia de Bolsonaro é um típico economista da Escola de Chicago, tendo, inclusive, trabalhado no Chile, mas também porque há governadores, como é o caso do governador gaúcho, que, sem coragem para enfrentar a crise com medidas realmente estruturais e ousadas, procuram sempre o caminho mais fácil, baseado na crença dos partidários do neoliberalismo, que com menos Estado, a economia crescerá e o mercado resolverá tudo sozinho.
Vejam: o que está ocorrendo no Chile é o resultado de anos e anos da aplicação desta política de austeridade e ajuste fiscal. A mesma que Bolsonaro adota no Brasil e que o Leite quer adotar no Rio Grande do Sul, com agravantes.
O pacote que Leite vai apresentar para a Assembleia, por exemplo, joga nos ombros dos servidores públicos a responsabilidade pela crise. Quer, de forma completamente inexplicável, porque ilógica, resolver a crise fiscal do Rio Grande do Sul tirando direitos dos servidores e, até, diminuindo seus vencimentos.
Como todos os governantes que não estão com a razão, Leite usa de subterfúgios argumentativos para sustentar sua ideia. Segundo ele, o pacote estaria, em verdade, combatendo privilégios. Mas que privilégios têm os professores gaúchos, por favor me respondam? Com salários médios que não passam de R$ 3 mil, os professores vivem, atualmente, a sua maior crise salarial, estando há cinco anos sem qualquer reajuste (o último foi, ainda, no governo de Tarso Genro, lembrem).
E os brigadianos? Cumprem jornada exaustiva, como se sabe, para obter uma remuneração que está abaixo da remuneração média do Brasil, apesar de terem obtido ganhos reais bancados também pelo ex-governador Tarso Genro.
Esses, professores e policiais, representam cerca de 80% dos servidores estaduais. Se Leite quer economizar, em cima dos servidores, R$ 25 bilhões em 10 anos, é justo supor que cerca de R$ 20 bilhões serão bancados por esta parcela do funcionalismo, uma parte fundamental, como se sabe, para garantir o mínimo de serviços públicos que o Estado está obrigado constitucionalmente a fornecer ao povo.
O erro do pacote não para aí. O que você acha que vai acontecer com a retirada de R$ 25 bilhões da economia gaúcha? Para onde vai esse dinheiro? Muito provavelmente, para subsídios empresariais ou para o pagamento da dívida. Então, não é economia coisa nenhuma, mas uma transferência de renda de quem ganha menos para quem ganha mais.
Não tenho mais espaço neste artigo, mas continuarei no assunto na próxima semana.

Líder da bancada do PT na AL

Deixe seu comentário abaixo

Outras edições

Carregando...