ANO: 25 | Nº: 6489

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
24/10/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Felizes para sempre

Seja feliz! Esta é ânsia do mundo contemporâneo. Fórmulas, fármacos, drogas, desejos, impulsos e instintos parecem ofertar uma comunhão de esforços para garantir algo incerto aos indivíduos: afiançam ilusões fugazes ao mostrarem falsas liberdades e criam subterfúgios para problemas profundos, gerando enormes desgastes. Na era das facilidades, por qual razão a felicidade deveria ser difícil?

Quando as elites intelectuais, ávidas por revolucionar as bases da sociedade, refletem sobre as perturbações da existência humana, imediatamente ergue-se o altar do egocentrismo e presta-se culto a libertinagem. Estas sabem que a desestruturação de laços que mantém os seres humanos unidos é benéfica para a implementação de determinadas agendas políticas. E qual seria o elo fundamental mais afetado com isso? Com certeza é a família.

De acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há um contínuo decréscimo na quantidade de casamentos no Brasil, ao mesmo tempo em que está ocorrendo um aumento significativo nas taxas de divórcio. Desta maneira, o IBGE aponta que se em 1984 os divórcios ocorriam em 10% dos casamentos firmados, em 2016 essa taxa cresceu para 31,4%. Em resumo, em 1984 ocorreram cerca de 93.000 dissoluções matrimoniais, ao passo que em 2016 foram 344.526, o que traz como consequência 580 divórcios por dia no período analisado (aumento de 269%). Em 2019 a Revista Crescer informou que, de acordo com o IBGE, as taxas de divórcio aumentaram em 8,3% (373.216 dissoluções matrimoniais) no período de 2016-2017. Um aumento vertiginoso em comparação com o intervalo 1984-2016. Mas isso tudo deveria ser motivo de preocupação?

Creio que parte desta resposta possa estar ligada diretamente a maneira com que os “intelectuais” se pronunciam sobre o assunto. Em reportagem da Revista Veja, o “especialista” em Direito de “Família” (nome curioso para o que se defende) não vê grandes problemas, afinal, “houve uma mudança cultural em que se compreendeu que o divórcio não é um mal. Os casais que se separam não optaram pela solidão, mas pela felicidade”. O próprio Instituto Brasileiro de Direito de Família, em texto publicado em seu site, em 2010, após tecer críticas a intromissão da Igreja Católica e do Estado na vida privada dos cidadãos (chavões comuns para quem quer destruir a família), declarou que o divórcio foi uma conquista política e social da sociedade.

Ora, a visão de que o divórcio não é ruim (então, por que casam?), da busca pela felicidade individual e da ideia de que a dissolução do matrimônio foi uma “conquista” (algo inerentemente bom?) são atravessadas pela noção de que o casamento é um simples contrato jurídico sem significado transcendente. Aliás, buscar um sentido mais profundo nas relações contemporâneas parece algo fora de moda. Basta ver quão efêmeros são os relacionamentos para se compreender como a felicidade é passageira nestas épocas.

Aliás, o mais curioso nesta situação é verificar os impactos efetivos na vida das gerações de inocentes que viveram o desgaste de assistirem seus pais romperem com os laços familiares mais íntimos. Ou será que tal desestruturação não guarda relação alguma quando os jovens se vangloriam pelo sexo descompromissado, com o aumento da delinquência juvenil e com a expansão do uso de drogas?

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