ANO: 25 | Nº: 6382

Fernando Risch

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Escritor
25/10/2019 Fernando Risch (Opinião)

Presença de espírito

Acordei atravessado, com dor de cabeça. Gostaria de dormir mais, mas tive de levantar, num arrastar de pés sonambuloso. O café até faz efeito, mas é efêmero, passageiro, e o rebote, pesado. O dia fica torto, preguiçoso. Gostaria de me deitar e dormir, aqui e agora, enquanto espero a minha senha na fila do banco, sentado ao lado de uma adorável senhora nas cadeiras preferenciais.

Dormira errado, no momento errado. Não posso nem culpar o falecido Horário de Verão. Deitei na hora de sempre, mas dormi sabe-se lá quando, acelerado, agitado. Um ideia me vêm à mente, preciso executá-la, mas não faço, é muito tarde para executar ideias e eu tenho que acordar cedo. Ah, quem me dera ter essa ideia durante o dia e a disposição que tenho agora, deitado, no escuro, de olhos abertos. Eu conquistaria o mundo. No outro dia, a ideia se dissipou, esquecida como uma átimo inexistente de pensamento.

As preocupações, as frustrações, as decepções, todas elas, juntas, unidas pelo propósito de tirar o sono, solúveis no mundo real, insolúveis num fechar de olhos próximo da meia-noite. Mas se dorme. Uma hora se dorme, no limbo entre a ilusão e sonho.

Acorda-se de novo e se faz tudo aquilo que se deve fazer. Às 11 da manhã, pela janela do trabalho, o céu é azul, as nuvens são brancas e o sol, cálido. O barulho do vento nas árvores assinam a tela. Está quente, é primavera. A vontade é de tomar uma cerveja. Cerveja ruim, de baixíssima qualidade. Mas gelada. Não é hora para isso, fica pra mais tarde. Seguimos tortos, bebendo café mal feito com água morna.

A noite chega mais uma vez e a vontade de tomar uma cerveja sumiu na hora em que deveria aparecer. Bebemos um copo de água com gás e isso basta. Está escuro lá fora. Antigamente era dia, agora não é mais. Só escuridão de uma noite qualquer, de um mês qualquer, de um ano qualquer. Deito-me, primeiro virando para a esquerda, depois pra direita, até que, enfim, pra cima, com um lençol a tapar meu corpo feito mortalha, uma caverna.

Vou dormir. Não, não vou. Será que vai dar pra pagar o cartão de crédito? Não sei. Provavelmente sim, sempre deu. Mas, naquele momento não. Nunca será possível. Opa, ideia boa. Vou começar um novo livro. Ah, mas são uma e meia da manhã, não tem como começar um livro agora. Amanhã eu me lembro dessa ideia genial.

Eu acordo. Esqueci. Estou torto, com dor de cabeça. Parece que corri uma maratona mental. Vai entender. Talvez um dia eu me acerte e meu espírito esteja presente no momento certo da minha existência.

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